Se “ELA” fosse uma professora…


A estreia do filme Ela (Her) se deu hoje em São Paulo.  Como havia lido os  comentários e ouvido sobre as premiações, minha expectativa era grande: era o primeiro da fila no cinema que escolhi. A história me interessava muitíssimo.

(Aviso: este artigo contém SPOILERS sobre o filme HER.)

Entrei no cinema 10 min antes do horário previsto para o começo do filme, e evidentemente, tive que checar meu iPad e iPhone umas duzentas vezes para preencher o vazio desse interminável intervalo. Ah, a ansiedade desses tempos modernos!  Fiz também a SIRI uma ou duas perguntas e ela pediu para acessar a minha conta do Twitter para a busca.  Me chama HORGUÊ  a gracinha. Gringa. Mas deu a resposta. Agora a situação piorara, o filme não começou ao final desse tempo. Quinze minutos depois da hora prevista, ainda não havia nem sinal de vida na cabine de projeção. Mais uns cinco minutos, e uma funcionária entrou espavorida e disse que houvera um imprevisto técnico.  O início do filme atrasaria mais um pouco. Ótimo prenúncio para um filme cujo história envolve um homem  que se apaixona por um sistema operacional: uma falha na tecnologia! Pressenti que o relacionamento retratado na tela tinha grande chance de ser um vôo turbulento!

O filme não decepciona, muito pelo contrário. Se não é exatamente revolucionário nas ideias, nos faz pensar muito sobre o que é a essência do ser humano e seus relacionamentos. Resumo da história:  Theodore (Joaquin Phoenix), separado da esposa, está prestes a assinar os papeis do divórcio, mas hesita, assim como ela, pois afinal de contas, trata-se de desfazer-se de toda uma vida construída juntos, desde jovens. Ele se sente solitário, e,  depois de experimentar algumas alternativas para conectar-se com outros seres humanos – incluindo linhas de sexo por telefone (numa cena hilariante, por sinal) – compra e se apaixona por um sistema operacional que se autodenomina Samantha (representado pela sensualíssima voz de Scarlett Johansson). O “OS” (operational system) tem um inteligência artificial  que se desenvolve e aprende, à medida que interage com humanos e outras máquinas.

Se o motivo do divórcio eram os problemas emocionais por que todos os casais passam, quando cada parte inevitavelmente muda e evolui, distanciando-se do parceiro, como seria lidar com isso numa relação com um computador que aprende constantemente e se torna cada vez mais autoconsciente? Não vou entrar em detalhes para não estragar o prazer de quem vai assisitir ao filme,  mas a reposta é: NÃO MUITO DIFERENTE!

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HER, the movie. Theodore and Samantha.

Imaginei como seria “HER” num contexto da Educação,  com programas e sistemas operacionais substituindo professores humanos. Afinal de contas, blended learning já é uma realidade sem volta. Obviamente, as grandes vantagens de interagir com uma máquina são a retroalimentação imediata, a personalização do ensino, a adaptabilidade da rota da aprendizagem ao progresso do aluno, e a flexibilidade do acesso online, permitindo que o aluno aprenda onde e quando queira. Essas atividades são indiscutivelmente executadas melhor por um computador.

Além disso, assim como no filme, o relacionamento  entre aluno e professor pode também facilmente prescindir da fisicalidade do contato.

Samantha,  o OS, no entanto, evolui a tal ponto ao longo da história que não lhe interessam mais os problemas humanos, está num nível muito superior de busca e preocupações existenciais, o que compromete seu relacionamento. Theodore busca então consolo numa amiga, real,  humana. Dessa forma, o filme parece concluir que seres humanos sempre necessitarão do contato com um semelhante,  alguém tão falho, inseguro, carente e, principalmente, dotado de um mesmo nível de complexidade emocional (nem superior,  nem inferior). Essa necessidade vale tanto para uma relação pessoal, como acadêmica, ou corporativa.

Claro que, dada a velocidade das mudanças tecnológicas por que passamos, não me aventuraria a prever exatamente o papel que o professor desempenhará amanhã.  Mas, se tomamos como exemplo a lógica do filme, a maior vantagem do ser humano está justamente na sua IMPERFEIÇÃO. A nossa própria fragilidade, se usada para potencializar e informar a empatia (a habilidade de sentir como o outro), será provavelmente a ferramenta que professores humanos disporão para se fazerem indispensáveis a seus alunos.

Au revoir

Jorge Sette.

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights): uma obsessão!


O primeiro contato

A primeira vez com que me defrontei com Catherine e Heathcliff, personagens principais de O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (Wuthering Heights), eu tinha quinze anos, e eles falavam em português. A cópia que eu lia, uma bela edição traduzida, de capa dura  em vermelho da Editora Abril (veja foto abaixo), mencionava “charneca” (the moors)  e “urzes” (heather). Nunca ouvi essas palavras em português noutro contexto, e as acho impressionantes e memoráveis. Não posso dizer, portanto, que minha obsessão  pelo livro tenha sido causada pelo inglês apaixonado de Emile Brontë, a autora. Foi a história em si, o enredo, a estranheza dos personagens, com suas personalidades fortes e até mesmo violentas,  e especialmente o cenário desolado de Yorkshire, que me marcaram tão profundamente.

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O Morro dos Ventos Uivantes

Chegando ao original

Só muitos anos depois fui ler o original em inglês (confesso que até hoje tenho dificuldades com o dialeto local do personagem Joseph, o caseiro, fariseu fanático e mal humorado, sempre pontificando contra o pobre Heathcliff), e também, pude ouvir o texto em duas versões diferentes de audiobook (há várias, com diferentes narradores, disponíveis no site audible.com, que, acredito, pertence agora a Amazon). Cheguei a colecionar diferentes cópias impressas. E toda vez que vou à Livraria Cultura tenho que me controlar para não comprar uma nova, com capa e formato diferente. Tenho duas no Kindle.

Não sou a única vítima do fascínio  quase inexplicável que Wuthering Heights exerce sobre alguns leitores, conheço muitos deles. Numa editora em que trabalhei, tinha laços muito estreitos com uma colega que morava na Inglaterra. Comentando sobre nossa amizade, uma da minhas chefes me congratulou, dizendo que era muito importante manter um bom relacionamento com clientes internos. Respondi com bom humor que não se preocupasse, pois eu e a colega tínhamos um vínculo inquebrantável: nossa paixão por Wuthering Heights.

A história

Para os que não conhecem o enredo, a história,  que se passa na segunda metade do século XVIII, contada em flashbacks,  é muito simples: um orfão de Liverpool, Heathcliff, de origem possivelmente cigana, é adotado por uma viúvo, que o recolhe durante uma viagem de negócios, e o traz para morar no casarão da fazenda que dá nome ao livro,  situada num área desolada e inóspita do norte da Inglaterra, cercada pela charneca (saboreio essa palavra com prazer, como se fosse uma fatia de cheesecake). O viúvo tem um filho e uma filha, Catherine (Cathy), que, a princípio, desprezam e maltratam o recém-chegado.

Catherine e Heathcliff, no entanto, são espíritos livres e selvagens, e, é claro, não demoram a se encontrar um no noutro. Passam o dia brincando e correndo pela charneca (olha essa palavra aí de novo!), até que o inevitável acontece: se apaixonam. Surpreendentemente, Catherine decide se casar com um vizinho mais endinheirado, pois, para ela, a posição social é tão ou mais importante que o amor. Heathcliff a entreouve, sem que ela perceba, quando Cathy confessa à governanta (a narradora principal da  novela) que seria humilhante casar-se com ele, apesar de ser a sua alma gêmea. “I am Heahcliff”, ela diz em certo momento, numa frase icônica,  mostrando que o sentimento dos dois vai muito além de uma mera paixão física.  Mas Heathcliff não chega a ouvir esta parte, pois já decidiu que não pode viver mais ali  e se vai.

Anos depois ele retorna, rico e poderoso. O resto da história é uma intriga de amor, ódio, ciúmes e vingança – não, não é novela das oito da Globo, sei que há paralelos, mas não se enganem. Tudo isso envolto numa atmosfera gótica, com a violência da geografia e das condições climáticas (frio, chuva, neve e vento) não apenas servindo como pano de fundo, mas refletindo e reproduzindo, na natureza, as paixões dos personagens principais.

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Versão cinematográfica clássica, de 1939.

Os filmes

Vi duas versões cinematográficas do livro: a clássica,  de 1939, com Lawrence Olivier no papel de Heathcliff e Merle Oberon no papel de Catherine, e uma mais recente, dirigida por Andrea Arnold, de 2011. A que prefiro é esta última,  que ousa escalar um ator negro para o papel de Heathcliff. Esta versão para mim é a que reflete mais fielmente os personagens do livro. É uma versão mais sombria,  cheia de silêncios e imagens impactantes do desolamento da região. Com atores em ótimas interpretações. Veja clip abaixo.

Por fim

Como conclusão, ressaltaria que a literatura, além do prazer (e obsessões)  que proporciona e da capacidade que tem de aumentar nossa empatia, colocando o leitor numa posição privilegiada para apreciar  e entender o ponto de vista e a perspectiva de terceiros, é também uma forma eficaz de aprendermos ou aprimoramos  uma língua estrangeira.

Au revoir

Jorge Sette.

As Aventuras de Pi e os “4 Cs” das Habilidades do Século 21


As aventuras de Pi: um garoto e um tigre, náufragos, confinados em um pequeno barco à deriva na imensidão do oceano Pacífico, procurando sobreviver nas condições mais inóspitas. O fato de que em 90% das cenas  do filme se vê o mar, em todo seu potencial de beleza e violência, nas mais variadas cores e transparências,  já seria razão mais que suficiente para amá-lo. Especialmente para quem, como eu,  sempre morou na praia durante a infância e adolescência, mas há 20 anos transplantou-se para São Paulo, sem nunca ter conseguido superar o trauma dessa separação, do corte dessa relação umbilical com o oceano. O filme de Ang Lee e o livro em que se baseou, do autor canadense Yann Martel,  são praticamente idênticos. Uma adaptação muito fiel e feliz.

Além do mar, o que mais me encantou em As Aventuras de Pi é que ele oferece vários níveis de interpretação, tem camadas e camadas de significados, e exalta a função primordial que a mitologia e a narrativa literária desempenham para o ser humano. O filme nos revela mais uma vez a necessidade da arte, da metáfora e da existência de narrativas imaginativas para nos estruturar e consolidar como seres humanos.

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As Aventuras de Pi, de Ang Lee.

Preparando um workshop há algum tempo – para consultores e representantes de uma editora – me dei conta de que poderia usar As Aventuras de Pi como uma maneira interessante de ilustrar o conceito dos 4 Cs  (veja lista abaixo) das chamadas habilidades do do século 21, cujo desenvolvimento se requer de todos os alunos, para que possam exercer  eficazmente as funções mais básicas na complexa sociedade em que vivemos. As habilidades são:

C –  Comunicação 

C –  Criatividade

C –  Colaboração

C –  Crítica (pensamento crítico)

Na realidade, essas habilidades sempre foram requeridas, e cultivadas pelas pessoas que mais se destacam social e profissionalmente.  A diferença é que agora nos demos conta de que elas podem ser explicadas, praticadas e desenvolvidas no ambiente controlado de uma sala de aula, assim como outras disciplinas e destrezas. Sem dúvida, no mínimo, o mero fato de discuti-las em classe e fazer com que os alunos tenham consciência delas e possam identificá-las, já os ajudará muito a tê-las como metas pessoais para o auto-crescimento.

Embora As Aventuras de Pi se passe no século passado, e o desenvolvimento dessas destrezas se dê, para o personagem principal, na escola da vida, sendo antes de tudo uma questão de sobrevivência, o filme não deixou de ser um meio excitante e eficaz de explicar as habilidades do século 21 para minha audiência.

Comunicação

Precisamos desenvolver habilidades comunicativas sofisticadas no mundo atual. Pode-se pensar em algo mais sofisticado e complexo do que desenvolver um sistema de códigos e procedimentos para domesticar um tigre dentro de um pequeno barco no meio do oceano Pacífico?  No caso específico dos alunos do século 21, em geral, o desafio é mais simples, resumindo-se à aprendizagem de novos códigos e linguagens, tanto naturais (inglês, espanhol, mandarim, árabe, etc.),  assim como a linguagem tecnológica (familiarizar-se, por exemplo, com os softwares mais utilizados no mercado de trabalho, e, sobretudo,  acostumar-se a lidar com o novo,  indutivamente  e autonomamente, explorando o funcionamento de um app, SaaS (software as a service,  ou como se diz em português, software como serviço, online), ou um aparelho digital recentemente lançado.

Criatividade

Não faltam cenas no filme que ilustrem esse dom que deve ser cultivado em cada um de nós. Pensar fora dos padrões comuns, exercitar a lateralidade do pensamento, dar asas à imaginação numa situação de emergência, saber explorar diferentes maneiras de atingir objetivos quando não temos os recursos mais básicos e necessários de que dispúnhamos anteriormente. No filme, todas as ferramentas produzidas e adaptadas pelo garoto indiano para sobreviver durante  mais de 200 dias dentro de um barco com uma fera selvagem nos remetem a essa poderosa faculdade que é a criatividade humana.

Colaboração

De uma certa maneira o processo de domesticação do tigre aproximou os dois náufragos, fazendo com que se criasse uma forte relação de respeito entre eles. Havia, se não um cooperação mútua, pelo menos o compromisso instintivo, por parte do tigre, de que deveria manter o companheiro vivo. No mundo duro do ambiente do trabalho, a habilidade de cooperar e criar um espírito de equipe é das mais difíceis de desenvolver, dado o egoísmo natural das pessoas. Aprimorar sua capacidade de trabalhar com o outro (online ou diretamente), respeitando o espaço e diferenças alheias, não tentar roubar para si o crédito do trabalho em comum, é um esforço hercúleo para todos. Inteligência emocional é o que mais se requer de funcionários, já que a desconfiança entre as pessoas com quem se trabalha e a falta de cooperação estão entre as principais causa da falta de produtividade nas empresas.

Pensamento crítico

Também não faltam exemplos no filme. Desde o momento em que Pi, ainda criança na sua cidade natal, se recusa a aceitar a impossibilidade de ser cristão, muçulmano e budista ao mesmo tempo (em cenas hilariantes), até o momento crucial do filme, quando o garoto conta aos representantes japoneses do navio que afundou duas versões da sua história, deixando claro que a mitologia esclarece e envolve emocionalmente mais que a narração crua e concreta de meros fatos.  O que é fato, opinião ou uma combinação dos dois? Saber identificar e interpretar as diferentes versões do real: nada mais contemporâneo e necessário à vida profissional do mundo globalizado e diversificado.

Assistam a esse belo filme ou leiam esse livro  incrível, mesmo que não necessitem programar uma palestra ou workshop baseados nele 🙂 .

Au revoir

Jorge Sette.

4 Livros Que Todo Professor de Inglês Deveria Ler.


Há livros, filmes, pinturas, esculturas e experiências sociais que têm  um impacto profundo nas nossas vidas e carreiras profissionais.  Neste post gostaria de compartilhar com vocês os quatro livros que mais inspiraram minha carreira de professor de inglês e “teacher trainer”. Li todos eles quando dei início a treinamento de professores como consultor numa editora nos anos 90, e durante meu mestrado em Linguística Aplicada na PUC em São Paulo por volta da mesma época.

Na realidade, eu recomendaria esses livros a qualquer professor de inglês iniciante ou experiente, ou mesmo a um professor que  ensine outras línguas. E ainda ao público leigo em geral, caso se interesse pelo fascinante tópico da linguagem e seu ensino e aprendizagem.

Volto a esses livros de vez em quando, e sempre encontro algo novo, um detalhe, ou alguma observação que depois de anos de prática fazem ainda mais sentido.  São imprescindíveis.

Vamos começar com o mais genérico de todos eles, um que considero a minha bíblia para o ensino de inglês, que cobre todos os aspectos do campo, passando pela análise  do processo de ensino, o conteúdo curricular, dando dicas sobre a escolha adequada de materiais didáticos, gerenciamento de classes, diferenças entre os tipos de alunos, etc, etc. Estou falando de A Course in Language Teaching, da Penny Ur, que frequentou inúmeros seminários em terras tupiniquins. Minha descoberta de Penny se deu através do famoso escritor de livros didáticos de inglês Robert O’Neil (um dos cérebros mais originais da área de ELT). Robert e eu estávamos sentados juntos na plenária da – para mim – ilustre desconhecida Penny Ur.  Começada a palestra, identifiquei que aquela pessoa que falava realmente tinha um conhecimento prático da realidade da sala de aula.  Era a “voz” de uma professora a que eu ouvia. Percebendo meu interesse, Robert comentou: “Não a conhece? Penny Ur. Se alguém algum dia quiser montar um treinamento completo para professores, tudo de que necessita é o livro dela!”  Reaaaaaally?  A lampadazinha das histórias em quadrinhos brilhou sobre a minha cabeça, e a partir dali comecei a montar toda a estrutura de um serviço de consultoria e treinamento que administrei por quatro anos, chamado Tutor. Alguns de vocês devem ter sido meus alunos…Infelizmente, meu livro, autografado pela autora, estava dentro de uma mala que me foi roubada numa viagem de volta da Jordânia. Foi o objeto cuja perda mais lamentei. Mas já comprei outro!

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A Course in Language Teaching (Penny Ur)

Outro livro que influenciou bastante a minha vida  profissional foi o Sound Foundations, do Adrian Underhill. O livro partia do princípio de que o aluno deve ter consciência do mecanismo de produção dos fonemas, entender o que está se passando com sua língua, com seu trato vocal, que partes estão sendo usadas na emissão dos sons. Não bastaria ao aluno uma exposição passiva ao insumo linguístico (input) para internalizar e reproduzir corretamente os sons, a inflexão e tonicidade de palavras e sentenças. Ele deveria ativamente  entender o processo para obter os resultados de inteligibilidade esperados de um falante de língua estrangeira. O livro se fazia acompanhar de um “chart”  fonético originalíssimo para a época, que hoje certamente está disponível online ou por outro tipo de mídia, como CD-ROMs. Este livro foi a base de uma programa que criei chamado Pronunciation for Brazilian Teachers, que foi bastante exitoso, repetido quase que semanalmente por quatro anos em várias cidades do Brasil.

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Sound Foundations (Adrian Underhill)

O terceiro livro que gostaria de sugerir se chama The English Verb, de Michael Lewis, um autor bastante controverso que tive a sorte de poder  conhecer e entrevistar para a revista trimestral do BRAZ-TESOL, que eu editava na época.  É um livro fantástico, mas não  recomendado para “os fracos de espírito”. Não pela sua complexidade, é muito bem escrito, e consequentemente, simples de entender. Mas exige que o professor tenha uma mente muito aberta a novidades, e esteja preparado para rever posições e fazer questionamentos muito profundos sobre o ensino de gramática, e, mais especificamente, sobre o significado dos tempos e formas verbais do inglês. Mudará sua cabeça para sempre, esteja avisada! Basicamente, o tema do livro é que há uma diferença enorme entre as regras gramaticais simplificadas que se usam em sala de aula, que muitas vezes só foram criadas para facilitar a vida do professor e do aluno, e a realidade do uso de determinadas formas verbais no inglês real, falado e escrito ordinariamente por nativos da língua. Preparada para cruzar esse abismo? Leia o livro.

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The English Verb (Michael Lewis)

Finalmente, deixem-me falar um pouco sobre Metaphors We Live By, de Lakoff e Jonhson. Neste livro revolucionário, aprendemos como a metáfora estrutura o pensamento e a linguagem do falante de inglês. Usamos a palavra “metáfora”  aqui não na sua acepção literária, mas como uma forma de expressar um pensamento com a ajuda de outro na linguagem do dia a dia,  por meio de analogias bem sistemáticas.  O livro nos leva a entender  como as experiências físicas e sociais nos ajudam a expressar comparativamente idéias mais abstratas e conceitos menos tangíveis. Partimos do concreto para chegar ao etéreo. Lendo o livro, você passará a entender associações que se fazem naturalmente em inglês sem nunca tê-las considerado mais profundamente.

Veja, por exemplo, como em inglês muitas vezes comparamos IDEIAS (abstrato) com COMIDA (concreto): “What he said left a bad taste in my mouth”, “All this paper has in it are raw facts, half-baked ideas and warmed-over theories”, ou  “There are too many facts here for me to digest them all”.

Também em inglês usamos sistematicamente a comparação de  TEORIAS (abstrato) com PRÉDIOS (concreto): “The argument is shaky”, “The theory needs more support”, ou ainda, ‘We need to construct a strong argument for that”. Percebeu? Todos os exemplos  anteriores são do livro.

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Metaphors We Live By (Lakoff and Johnson)

Esses livros certamente enriquecerão sua biblioteca e mudarão muito sua visão sobre a linguagem e seu ensino. Aqui está a lista:

1. A Course in Language Teaching (Ur, Penny. Cambridge University Press, 1996)

2. Sound Foundations (Underhill, Adrian. Macmillan, 1994)

3. The English Verb (Lewis, Michael. LTP, 1986)

4. Metaphors We Live (Lakoff, G. and Johnson, M. The University of Chicago Press, 1980)

Agora é sua vez. Que livros você me recomendaria?

Au revoir

Jorge Sette.

Meus 5 lugares preferidos de Londres


Londres é realmente uma das cidades mais fascinantes do planeta. Tenho uma teoria, a de que se você seguir a trilha das cidades escolhidas para sediar as Olimpíadas de verão, você estará fazendo escolhas certas para as cidades que um dia deve visitar. Veja por exemplo onde será a próxima: Rio!

Tive o privilégio de, no verão de 2012, ir duas vezes a Londres: primeiro fui a trabalho, e me encantei com a vibração da cidade (já havia ido outras vezes, mas desta vez havia alguma coisa diferente no ar, e pode ser que tenha sido a atmosfera pré-Jogos Olímpicos.). Não sei, resolvi voltar nas minhas férias, que seriam algumas semanas depois. Uma decisão acertadíssima.

Não faltam guias e informações turísticas sobre esta cidade. Por que estaria eu então escrevendo este post? A idéia é personalizar a experiência, compartilhando com vocês, queridos leitores, meus lugares e prazeres prediletos dessa encantadora cidade.

O Metrô

OK, ele é velho e apertado, pode estar superlotado, e se tornar um forno no verão. Mas e o charm?  E o cosmopolitismo? E andar por aqueles corredores com gente de literalmente todos os lugares do planeta (tenho certeza de ter visto uns marcianos por ali também) e muitas vezes  ao som de baskers (músicos de rua, e…umhh …de metrô, suponho) tocando, se você tiver sorte como tive,  uma de suas canções preferidas. Lá, o metrô é chamado THE TUBE, e chega a virtualmente todos os lugares da cidade. O que é comum na Europa, por sinal. O sonho de consumo de todo paulistano ou carioca. Realmente, muitas vezes eu não ia a lugar algum especificamente, apenas entrava e saía das diversas estações, curtindo a experiência em si (please don’t call me weird!). Ah, compre seu passe semanal para economizar uma mini-fortuna.

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I love the London Tube

The National Gallery

Localizada em Trafalgar Square, este importante museu tem mais de 2300 pinturas, de artistas como Caravaggio,  Jan van Eick, Rubens and Turner: talvez alguns de vocês se lembrem da famosa cena de SKYFALL, onde OO7 conhece o jovem Q na frente de uma obra de Turner, e trocam farpas e  ironias sobre  as vantagens e desvantagens da experiência (velhice) versus juventude.  Se passa na National Gallery.

O que mais me deslumbra, porém, é o fato de que a galeria está ali sempre, para os moradores, à sua disposição, para visitação  quando queiram, e de graça! Para nós, turistas , há que aproveitar cada minuto. Posso passar horas andando ali, transportado para um mundo de sonhos. Vi pela primeira vez o famoso quadro Sansão e Dalila de Rubens (imagem abaixo) no ano passado. Por quase um mês enviei emails para amigos com a foto do quadro, orgulhosamente discursando para eles (obrigado pela paciência!)  sobre os diferentes focos  de luz escohidos pelo artista para apresentar a cena da traição: enquanto Sansão dorme, Dalila lhe corta os cabelos, fonte de sua força, para entregá-lo aos filisteus.  Além das três fontes de luz visíveis, o quadro era para ser pendurado em cima de uma lareira originalmente, o que adicionava mais sombras, calculadamente.  Fantástico. Isso tudo eu aprendera, claro,  durante a audio-tour.

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Sansão e Dalila, Rubens. National Gallery. Clique para aumentar.

St Paul’s Cathedral, the Millennium Bridge e Tate Modern

Não, não estou trapaceando, falando de três pontos turísticos ao mesmo tempo, havendo prometido só cinco. É que se chega de St Paul’s a Tate Modern através da Ponte do Millennium. Tudo isso às margens do Tâmisa, com direito a calçadão tipo Ipanema, que se estende ao longo do rio até a Tower Bridge: uma bela caminhada. O pátio à frente do Tate Modern – um museu de arte moderna instalado numa antiga central elétrica – é uma festa, com gente conversando, tirando fotos, músicos tocando, pessoas declamando… Há também um terraço no piso superior do museu que oferece uma vista impagável da catedral e do rio. Merece uma, não, várias fotos.

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St Paul’s Cathedral – vista do Tate Modern. Clique para aumentar.

Hyde Park

Minha frustração é nunca ter visto um dos concertos dos Rolling Stones ali: era criança no primeiro e não tive férias  para poder ir ao segundo. Mas como minha imaginação é boa (e havia visto o vídeo do primeiro concerto!!), não tive problemas em perambular por ali como se estivesse ouvindo Sympathy for the Devil. Me hospedei ali perto, em Bayswater, portanto a caminhada pelo parque era uma obrigação e um prazer quase diários. Parques de Londres são pérolas no verão. Vá a qualquer um,  a diversão é garantida.

Camden Town 

Os mercados, a vibração,  os barzinhos à beira do canal, o fato de ser onde morou Amy Winehouse, tudo isso contribui para a atmosfera mágica desse bairro. Recomendo sobretudo o mercado principal, o CAMDEN LOCK, folclórico em todos os aspectos, cheio de gente interessante, muitos góticos,  tudo para comprar, incluindo livros, velharias,  comida, e ótimas barganhas (tipo camiseta com dizeres I LOVE THE LONDON TUBE).

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Camden Town. Clique para a aumentar.

Bem por hoje é só.

Agora é sua vez: quais são seus lugares preferidos de Londres? Compartilhe conosco.

Ah, se alguém está se perguntando por que esse post está figurando num blog sobre linguagem, digamos que visitar Londres é uma das maiores motivações para se aprender inglês! Taí o vínculo.

Au revoir

Jorge Sette

Ensinando Português “BRASILAIRO” em Portugal


Depois de morar na Inglaterra por quase 18 meses em 88/89, a coceira de viajar recomeçou, e como havia tido o convite  de um colega de escola  em Bournemouth para visitá-lo no Algarve, resolvi aproveitar a aportunidade e passar um tempo em Portugal.  Chegando ao aeroporto em Portugal,  percebi já uma familiaridade brasileira na imigração, uma atmosfera bem diferente da formalidade e frieza britânicas. Também, saindo à rua,  me chamou a atenção a luminosidade do lugar, se comparada à qual  me havia exposto nos últimos 18 meses. Praticamente não houvera verão em 88 na Inglaterra.

No avião, soubera por um outro brasileiro de uma “pousada” no centro  de Lisboa, com preços acessíveis e uma dona muito simpática.  Uma vez que não fizera reserva, resolvi ligar de um telefone público para a tal senhora da pousada.  Já ao telefone senti dificuldade em entender o sotaque lusitano, e me parecia que a dona da pousada se dirigia a mim de forma estranha: ‘Sim, senhôra, temos vagas! ‘  Não podia acreditar que ela estivesse  confundindo meu sexo, pois minha voz mudara muito cedo na adolescência, e  não havia dúvidas de que depois dos vinte anos eu tinha defitivamente o timbre masculino na voz! Resolvi passar a falar em inglês com ela, daí foi que me dei conta de que o seu uso de “SENHÔRRRRRR (A)  era apenas uma questão de sotaque! Definitivamente, não estávamos no Brasil.

Instalado na pousada, saí imediatamente a procurar emprego.  Havia a necessidade de regularizar uns tais de RECIBOS VERDES para trabalhar legalmente, e dei início ao processo. Não havia demanda para professores de inglês, pois havia muitos ingleses na região,  e eles ocupavam os cargos, mas não tive problemas em me distinguir como PROFESSOR DE PORTUGUÊS BRASILAIRO, como dizem por lá, e logo logo tinha emprego em duas escolas.

Claro que o ensino de português como língua estrangeira não dispunha dos mesmos avanços metodológicos  e materiais didáticos  que o ensino de inglês na época. Além disso, eu havia sido professor na Cultura Inglesa de Recife, que, além de usar os livros didáticos mais atuais do mercado, se destacava pela imensa quantidade e qualidade de materiais didáticos extras disponíveis na sala dos professores. Havia material  suplementar para qualquer ponto linguístico que se precisasse ensinar.  Portanto estranhei bastante a carência de recursos  no começo.

Eu era o único professor  brasileiro nas duas escolas em Portugal. Ou seja, tudo estava sob minha responsabilidade: desde a escolha dos livros, criação da metodologia, seleção de materiais suplementares.  Desafios excitantes. Além disso, era ótimo sentir-se falante nativo da língua, um gostinho que obviamente nunca tivera ao ensinar inglês.

Jorge preparando aulas de português para estrangeiros. Lisboa, 1989.

Jorge preparando aulas de português para estrangeiros. Lisboa, 1989. Clique para aumentar.

Tive alunos bem interessantes.  Como a demanda por português brasileiro não era tão grande na época, em geral eram aulas individuais. Todos os meus alunos, tanto em Lisboa, como depois no Algarve, eram alemães. Havia também uma suíça, de mãe brasileira.

Tive uma aluna  alemã que se dizia escritora feminista, adorava Caetano Veloso, e me levou a um show dele em Lisboa (pagando a minha entrada). O show foi maravilhoso (nunca vira Caetano ao vivo no Brasil), apesar de me sentir um pouco constrangido quando a aluna cantava a plenos pulmões “réptil camaleoa” acompanhando o cantor: como o leitor deve saber, o verso original, sem a adaptação criativa da minha aluna, seria  “rapte-me, camaleoa!”. Claro que a primeira coisa que fiz  foi ensinar-lhe a letra na próxima aula, e quando vi a surpresa nos olhos dela, não tive coragem de comentar o erro anterior, ela havia notado, sem dúvida!

Tive ainda, como alunos,  um casal de operários  alemães que se mudaria para o Brasil para trabalhar com Lula e apoiá-lo na campanha presidencial de 1989.

Logo depois,  uma das escolas me convidou para ensinar  na sua filial em Faro, no Algarve.  Ali, tive um aluno alemão, executivo da Siemmens, que viria morar no Rio, e a tal aluna suíça, filha de brasileira, que já falava seis línguas. As aulas dos dois eram separadas, mas fazíamos muitos passeios juntos pelo sul de Portugal, que eram na verdade uma continuação das aulas. Me sentia um pouco como Maggie Smith no filme Primavera de Uma Solteirona, saindo em excursões e jantando com os alunos. Só que todos eram mais velhos que eu!

Engraçado como ser falante nativo da língua que se ensina pode levá-lo a surpreender-se com pontos linguísticos sobre  os quais nunca cogitara antes: um aluno me perguntou a regra de uso do subjuntivo depois das conjunções APESAR DE QUE, EMBORA, SE, etc….não soube explicar…acho que até hoje não sei. Também aprendi muito sobre as diferenças entre o português brasileiro e o lusitano.  Até mesmo com os próprios alunos. A listinha abaixo  (do site http://www.soportugues.com.br) lhes dará uma idéia, por exemplo, de diferenças de vocabulário que podem causar-lhes certos problemas:

Português do Brasil
Português de Portugal
abridor tira-cápsulas
açougue talho
aeromoça hospedeira de bordo
apostila sebenta
bala rebuçado
banheiro casa de banho
cafezinho bica
caixa, caixinha boceta
calcinha cueca
carteira de identidade bilhete de identidade
carteira de motorista carta de condução
celular telemóvel
conversível descapotável
faixa de pedestres passadeira
fila fila ou bicha (gíria)
geladeira frigorífico
grampeador agrafador
história em quadrinhos banda desenhada
injeção injeção ou pica (gíria)
meias peúgas
ônibus autocarro
pedestre peão
ponto de ônibus paragem
professor particular explicador
sanduíche sandes
sorvete gelado
suco sumo
trem comboio
vitrine montra
xícara chávena

Bem, só não havia “telemóvel” naquela época! Por hoje é só. Mais sobre ensino/aprendizagem de línguas num futuro próximo.

Au revoir.

Jorge Sette

Ensinando linguagem com Michelle Pfeiffer e Dylan


Acabo de ler no Twitter que, por esses dias, uma professora da Flórida nos EUA, com um histórico  profissional impecável, foi suspensa por três dias, por ter passado aos alunos, como dever de casa, a análise da letra da canção Six Foot Seven Foot  do cantor de rap Lil Wayne. Os pais, enfurecidos, reclamaram e a professora foi suspensa.

Os alunos eram da oitava séria americana, ou seja, têm entre 13 e 14 anos de idade. A ideia da professora era que os alunos identificassem linguagem figurada no texto. Aparentemente, a pobre professora já havia tentado ensinar-lhes conceitos de jogos de palavras, símile e metáfora, usando Shakespeare e Edgar Allan Poe, mas não funcionara!

Se vocês checarem a letra de Six Foot Seven Foot na internet, vão provavelmente concordar com os pais,  já que é bastante explícita em tópicos de sexualidade e violência. Não me surpreende que a tenham achado inadequada para alunos dessa faixa etária.

No entanto, gostaria de discutir mais a fundo a atitude da professora, baseado em exemplos pessoais como professor e como educador.

A professora pode ter ido além dos limites aceitáveis, mas é imprescindível que o ensino seja baseado na realidade, interesses e expectativas dos alunos,  pelo menos como ponto de partida, do contrário o trabalho do professor se frustrará. Faz parte da missão do professor assumir riscos.

Num filme que recomendo a todos, DANGEROUS MINDS (Mentes Perigosas, disponível em DVD),  Michelle Pfeiffer protagoniza uma professora designada para ensinar estudantes segregados em uma “sala para alunos especiais”. São de uma rebeldia  e indisciplina bem conhecidas dos que ensinam nas escolas de periferia das grandes cidades. Depois da esperada rejeição inicial por parte dos alunos, ela vai, passo a passo, conquistando-os. Para isso, usa com êxito táticas parecidas com as da professora da Flórida, mas com variações que fazem toda a diferença. A competição Dylan-Dylan que  propõe aos alunos é um exemplo:

Percebendo rapidamente que  seria impossível manter os alunos interessados na poesia de  Dylan Thomas, que fazia parte do programa curricular,  ela  lhes pede que pesquisem um poema de Dylan Thomas que seja parecido em conteúdo  ou tema com a  letra de uma canção de um outro Dylan, o Bob, muito mais acessível aos alunos,  e que já vinham lendo em aulas anteriores.  É a chamada competiçao Dylan-Dylan. O prêmio para os ganhadores será um jantar com a professora num restaurante mais fino, de modo a motivá-los a participarem da gincana.

Os alunos participam ativamente, consultando livros do poeta Dylan Thomas na biblioteca, diante dos olhos incrédulos da bibliotecária, e discutindo os textos em pequenos grupos.

É interessante notar que uma cena anterior à da  proposta da competição nos  remete diretamente à tática da professora da Flórida.  O personagem de Pfeiffer e alunos discutiam o significado da letra de “Mr. Tambourine Man”,  conhecida canção de Bob Dylan, e em determinado momento a professora aventa  a possibilidade de que o tal “Homem do Pandeiro” possa ser um código (metáfora) para um traficante de drogas. Os alunos embarcam totalmente nessa interpretação: estão agora no mundo que conhecem, dos bairros duros em que moram, das pessoas que têm como vizinhos,  e se sentem muito à vontade expandindo a interpretação da professora. Batalha ganha!

Essa tática diverge da usada pela professora da Flórida nos seguintes pontos: os alunos  do filme eram mais velhos, portanto os conceitos abordados não seriam  tão chocantes para eles;  além disso, o objetivo era, partindo de algo mais simples, chegar ao ponto didático programado pela escola: a poesia de Dylan Thomas. Não nos cabe discutir aqui o valor estético de um ou outro poeta, ou a relevância das decisões curriculares da escola, mas ressaltar que a professora no filme foi astuta, subvertendo as normas de forma muito mais sofisticada e menos agressiva que sua colega da Flórida.

Trabalhando numa editora multinacional, tive a oportunidade de dar um treinamento de “gerenciamento de classe” para professores na Jordânia.  O filme Mentes Perigosas tem pontos muito interessantes a esse respeito, mas é um filme de linguagem forte e discute conceitos nada tradicionais, sobretudo para professores de países com uma cultura bem diferente da nossa.  Portanto, temi que seria arriscado apresentá-lo durante meu treinamento. Mas resolvi assumir o risco, depois de discutir com nossos representantes comerciais locais. Qual não foi minha surpresa com a reação dos professores, que, após a exibição do filme, passaram a discutir excitadamente os exemplos mostrados,  procurando formas de adaptar alguns pontos metodológicos à realidade de suas classes. Isso comprova que bons professores são necessariamente pessoas mais abertas a ideias novas e inusuais em qualquer lugar do mundo.

Qual seria então a solução para o professor que deseja se arriscar?  Encontrar um meio termo. Não deixar de se aventurar, e sempre avançar em metodologias  e táticas que sejam novas e que possam surtir efeito mais eficaz na aprendizagem. Mas talvez discutir antecipadamente com colegas, coordenadores e mesmo os pais a possibilidade de usar métodos menos convencionais no ensino de língua e literatura para alunos adolescentes.

Como preconizava o renomado pedagogo Paulo Freire, “ninguém nasce feito, é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos.”

Au revoir

Jorge Sette

Gosto de roçar minha língua na língua de Luís de Camões


Não,  caro leitor de curta memória, o título desse post  não faz qualquer referência ao famoso primeiro beijo gay da televisão brasileira (ou melhor, da maior emissora de TV brasileira em horário nobre, porque me parece que outros beijos, menos concorridos  e populares, já houve). Acho que esse assunto já está esgotado.

O título diz respeito ao primeiro verso de uma canção do compositor Caetano Veloso, chamada Língua,  popularizada nos anos oitenta, cuja primeira estrofe segue mais precisamente assim:

Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódia
E um profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa, (etc, etc, etc)

É um hino de amor às idiossincrasias e ao potencial criativo e vibrante da variante brasileira da língua portuguesa. Sem negar sua origem europeia, mas ressaltando o rico substrato local sobre o qual se formou, a gama de influências que a forjaram,  e que a tornaram de uma plasticidade e “antropofagia” invejáveis.

Mas tampouco estou aqui para enaltecer Caetano,  que ele não precisa de mim para isso. Meu ojetivo é alertar o leitor, caso seja professor, aluno e mesmo amigo e parente de estrangeiros,  do aumento espetacular do interesse internacional pela “Última flor do Lácio, inculta e bela” – outra referência à nossa língua, do poeta Olavo Bilac (prometo, esta é a última!).

Evidentemente, as razões econômicas e a dinâmica do mercado, com o Brasil entre as 10 maiores potências econômicas do planeta, e  em pleno crescimento (apesar dos soluços do processo)  são o motivo primordial desse renovado interesse. O fato de termos sido escolhidos os anfitriões da Copa do Mundo neste ano, e das Olímpiadas em 2016, certamente contribui também para esse aumento da popularidade da língua. Afinal, fazer negócios com brasileiros  em sua própria terra, em Português, certamente ajuda.

Além disso,  segundo minhas últimas pesquisas na Wikipédia, o português “é uma das línguas oficiais da União Europeia, do Mercosul, da União de Nações Sul-Americanas, da Organização dos Estados Americanos, da União Africana e dos Países Lusófonos“. E  a encicloplédia online continua, dizendo que “com aproximadamente 280 milhões de falantes, o português é a 5ª língua mais falada no mundo, a 3ª mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul da Terra.”

Se essas não são razões mais do que suficientes para convencer o leitor de que deve se preparar para ou aprender ou ensinar português diante das oportunidades político-eonômicas que se abrem,  eu usaria meus próprios argumentos, inquestionavelmente mais românticos e pessoais. Vamos a eles…

Venhamos a eles:  falaria, por exemplo, dos prazeres únicos de se ler Machado de Assis e José Saramago no original. Indagaria como apreciar a letra da música Vapor Barato, cantada pela cristalina voz de Gal Costa no final do belíssimo e poético filme Terra Estrangeira de Walter Salles, sem entender a nossa língua?  Como mergulhar de cabeça (as metáforas marítimas são sempre muito bem-vindas em se tratando de produtos brasileiros e portugueses)  na trama complicada e nas nuances verbais do violento Cidade de Deus (filme ou livro, pois não acredito que o turista vá se aventurar nessa área da zona oeste da capital carioca), e, mesmo assim,  admito que ele precisaria chegar a um nível mais que intermediário da língua para conseguir decifrar as gírias e a gramática peculiares ao tráfico.

Finalmente, como brasileiros hospitaleiros, é nosso dever lembrar ao gringo que, depois de poucos dias no Rio, uma vontade visceral de adaptar-se  ao local e assumir sua persona carioca, e quiçá ser confundido com os nativos, corroerá  sua alma de imigrante, turista ou mulher de negócios!

Ao estirar-se nas confortáveis cadeiras de praia,  diante de um magnífico marzão em dia de ressaca (e sem poder associar as rebeldes ondas aos olhos de Capitu (OK, quebrei a promessa, fiz  mais uma referência literária local!! Me considero culpado.), com uma caipirinha na mão e o olhar fixo nos  corpos esculturais  das garotas e garotos de Ipanema, que se encontrarão espalhados à sua volta no Posto 9, nosso amigo gringo se perguntará por que não se dedicou mais ao estudo dessa bela língua: “Chomsky, seu sacana – dirá amargurado –  por que não posso ajustar meu LAD (language acquisition device, mecanismo inato, que , segundo o teórico, já vem preparado para absorver a língua nativa quando somos crianças) para a aprendizagem natural e automática do Português?” E prosseguirá: “Deus, vós que sois brasileiro, como poderei celebrar as vitórias e os gols brasileiros da vindoura Copa, e discutir os detalhes dos jogos com esses torcedores bravios, sem fluência no idioma nativo?”

Deus responderá, mas em português, e o gringo não entenderá.

Daí já será tarde demais!

ipanema, Rio

Ipanema, Rio. Clique para aumentar.

Bem, acho que já lhes dei motivos mais do que suficientes para desejarem que suas línguas rocem a de Camões.

Num proximo post, lhes contarei minha experiência de ensinar português para estrangeiros, numa época em que nossa língua nem era tão popular assim, em Lisboa e no Algarve, como falante nativo de PORTUGUÊS “BRASILAIRO” (como se é pronunciado em Portugal).

Au Revoir

Jorge Sette.

Meu segredo para aprender inglês…


Há muita informação disponível sobre as estratégias usadas por pessoas que aprenderam, ou mais precisamente, adquiriram, uma segunda língua,  e  que demonstram um desempenho quase de falantes nativos. Basicamente, a distinção que faço aqui entre “aprender” e “adquirir”  é a usada pelo linguista Stephen Krashen, ou, simplificadamente: “aprender” é saber sobre os fatos da língua e poder discuti-los (ou seja, ter informação sobre a gramática, vocabulário, adequação dos registros ao contexto, semântica, etc), ao passo que “adquirir” vai uma pouco mais além: quer dizer usar a língua, falada e escrita,  de forma natural nos diversos contextos em que se requer.

Tecnicalidades à parte, posso ser considerado um falante bem-sucedido de inglês como segunda língua, uma vez que já ensinei a língua, e até mesmo administrei treinamentos para professores de inglês, além de ter trabalhado como consultor  e gerente de marketing para editoras,  usando basicamente o inglês no meu dia a dia profissional.

Digo tudo isso não para me gabar, mas para explicar ao cético leitor que as estratégias pessoais que enumerarei abaixo merecem uma certa credibilidade, dados os resultados atingidos.

Hora de tirar a pipoca do microondas, sentar-se relaxadamente na sua poltrona preferida, e ouvir minha história:

Motivação

Tudo começou há muitos anos,  numa praia paradisíaca no litoral da Paraíba, chamada Acaú, onde eu, meu irmão e 4 primos passávamos as férias de verão (sem nem sequer o conforto de eletricidade ou água corrente) – adianto que essas condições precárias não são um prerequisito para se aprender uma língua estrangeira.

Acaú, PB

Acaú, PB. Clique para aumentar.

Nossa tia havia morado nos EUA e, por algum motivo nunca muito bem esclarecido, entendeu que aos 9 ou 10 anos de idade, dispúnhamos de tempo livre demasiado brincando como selvagens na praia, e deveríamos nos submeter a uma ou duas horas de inglês por dia, com o método do Yázigi, utilizando um toca-fitas de pilhas. Apaixonei-me pela língua – até, quem sabe, por associá-la à beleza primitiva do lugar, ao fato de estarmos de férias, e de que, logo mais à noite, a lua e estrelas brilhariam claríssimas, em consequência  da falta de eletricidade nas casas (acho que estou exagerando no romantismo e começando a digressionar). Em resumo, motivação intrínseca é um fator  primordial na aprendizagem de uma língua.

Autonomia

Ao retornar das férias, segui aprendendo sozinho, agora usando um outro curso chamado LINGUAPHONE, na garagem de casa, nas tardes depois de voltar do Colégio Marista, sonhando que um dia teria a oportunidade de falar a língua com as estrelas dos filmes de Hollywood (chegara o momento da pré-adolescência em que passamos pelo CRUSH pelas celebridades). Assim como hoje, adorava cinema e música americanas, o que fomentava mais ainda o desejo de falar e entender o inglês.

A partir do sexto ano no colégio, começamos a ter aulas formais de inglês no programa, e a proximidade e amizade com dois  excelentes professores que tive a sorte de ter facilitaram ainda mais meu interesse e bom desempenho na língua.

Literatura

Já na universidade, como aluno da Cultura Inglesa, descobri a bem sortida biblioteca da escola, e me joguei compulsivamente na leitura dos READERS (literatura simplificada  e cuidadosamente graduada para o ensino da língua). Fui passando naturalmente de nível a nível na leitura dos livrinhos, consumindo de tudo: clássicos, histórias de detetive, ficção científica e não ficção. Meu interesse e dedicação chamaram a atenção da diretora da escola, que acabou me convidando para um processo de seleção para professores na própria escola. Passei de aluno a professor! Hoje em dia a maioria dos livros que leio continua sendo em inglês, até mesmo pela facilidade de obtê-los no Kindle.

Graded readers

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Exposição à linguagem oral

Esses eram anos pré-video cassete, e internet, de modo que não tínhamos muitas oportunidades de ouvir o inglês. Tudo de que dispúnhamos eram as passagens de compreensão auditiva durante as aulas. Não era suficiente. Eu fazia de tudo para aumentar essa exposição: puxava conversava com os poucos gringos que frequentavam Olinda nos anos oitenta, tentava sintonizar a BBC WORLD SERVICE  nas ondas curtas num antigo rádio em casa, via e revia sessões de cinema. Até que tive a chance de ir morar e estudar na Inglaterra!

Morar no país em que se fala a língua

Minha experiência na Inglaterra foi um sonho. Sair de Recife para o mundo mudou minha vida radicalmente. Abriu minha cabeça e me fez amadurecer da noite para o dia. Quanto ao inglês, nem se fala (ou melhor, só se fala!!!). Evitava o contato com os vários alunos brasileiros que estudavam na King’s School, a escola que eu frequentava em Bournemouth, no sul da Inglaterra.  Cada minuto deveria ser dedicado à exposição à língua inglesa. Fiz amizade com alunos de outras nacionalidades e professores. Ouvia a BBC RADIO 4 em todas as horas que tinha livre, e comecei a comprar audiobooks, em  forma de fita cassette naquela época (comprei lá meu primeiro walkman, que parecia uma mini geladeira, branquinho, com uma portinha para abrir e inserir a fita). Ainda tenho como lembrança. Como consequência da exposição direta à língua e dedicação ao estudo mais formal das regras, passei no CAMBRIDGE PROFICIENCY, e vim para São Paulo ensinar inglês e fazer meu mestrado (imagina em quê?) em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas na PUC.

Jorge Sette: Bournemouth - UK, 1989

Jorge Sette: Bournemouth – UK, 1989. Clique para aumentar.

Bournemouth 1988

Bournemouth 1988. Clique para aumentar.

Espero que essa historieta inspire alguns a aprender uma língua estrangeira.

Au revoir

Jorge Sette.

Professores de carne e osso versus programas online


No meu post do ontem neste blog, fiz um resumo das novas tendências e tecnologias no ensino/aprendizagem de línguas. Pelos comentários que recebi, notei que alguns dos meus amigos professores se sentiram incomodados e um pouco amedrontados diante da possibilidade de insegurança e instabilidade nos seus empregos num futuro próximo. Bem,  estabilidade no emprego é algo que já não existe mais, bem-vindos a 2014!

São muitos os fatores que influem na instabilidade profissional dos nossos dias e não é nosso objetivo discuti-los aqui. Por outro lado, não acho que ela se deva especialmente à mecanização e automatização de algumas funções proporcionadas por programas para ensino de línguas disponíveis online.

É indiscutível que o futuro da educação como um todo passa pela Internet: MOOCs  (Massive Open Online Courses) e outras tendências semelhantes vieram para ficar. No entanto, o papel do professor como educador é bem mais amplo do que um mero apresentador de pontos gramaticais, corretor de exercícios, e  elaborador de provas.

Acabo de assistir a um filme bem interessante e complexo sobre a influência que uma professora nos anos trinta na Escócia tinha  sobre suas seletas alunas numa escola religiosa de classe alta (The Prime of  Miss Jean Broady – traduzido horrivelmente como A Primavera de um Solteirona), com a inigualável Maggie Smith (ganhadora do Oscar por esse papel. O filme está disponível em DVD,  é do final da década de sessenta, mas envelheceu bem). Ao contrário do açurarado (mas também meritório) Dead Poets Society, o primeiro filme vai mais além, pois tem a ousadia de também discutir a influência nefasta que algumas idéias e atitudes do professor podem ter sobre seus alunos. (vejam a foto do filme abaixo):

Imagem

Maggie Smith – Primavera de uma Solterirona. Clique para ver aumentado.

O ponto em questão aqui é enfatizar que a relação professor/aluno tem uma importância e consequências, sobretudo em se tratando de crianças e adolescentes, que vão muito além da sala de aula. Dessa forma, acredito que ainda está muito distante o tempo em que o papel do professor possa ser totalmente substituído por um programa de computador. Incentivo e apoio moral, interação contextualizada, emoção e carinho são aspectos do processo didático que ainda não podem ser replicados automaticamente.

Pensem em programas online como um complemento eficientíssimo no arsenal de que alunos e professores podem dispor na aquisição de uma nova língua. Desde a exposição a outros modelos de falantes (a maioria nativos),  passando pela personalização da aprendizagem, e chegando à incontestável atração que os mais jovens sentem pelo mundo online (será que são só eles? Só me desgrudo do meu iPad quando estou nadando, e não vejo a hora de inventarem um à prova d’água!).

A automatização dos programas de ensino de línguas online tem como benefício a liberação do tempo do professor para, em sala, dedicar-se às tarefas que ainda não são feitas eficazmente pelo computador, como a diferença positiva que o contato humano  direto adiciona à experiência da aprendizagem.

Au revoir

Jorge Sette.