Ensinando linguagem com Michelle Pfeiffer e Dylan

Acabo de ler no Twitter que, por esses dias, uma professora da Flórida nos EUA, com um histórico  profissional impecável, foi suspensa por três dias, por ter passado aos alunos, como dever de casa, a análise da letra da canção Six Foot Seven Foot  do cantor de rap Lil Wayne. Os pais, enfurecidos, reclamaram e a professora foi suspensa.

Os alunos eram da oitava séria americana, ou seja, têm entre 13 e 14 anos de idade. A ideia da professora era que os alunos identificassem linguagem figurada no texto. Aparentemente, a pobre professora já havia tentado ensinar-lhes conceitos de jogos de palavras, símile e metáfora, usando Shakespeare e Edgar Allan Poe, mas não funcionara!

Se vocês checarem a letra de Six Foot Seven Foot na internet, vão provavelmente concordar com os pais,  já que é bastante explícita em tópicos de sexualidade e violência. Não me surpreende que a tenham achado inadequada para alunos dessa faixa etária.

No entanto, gostaria de discutir mais a fundo a atitude da professora, baseado em exemplos pessoais como professor e como educador.

A professora pode ter ido além dos limites aceitáveis, mas é imprescindível que o ensino seja baseado na realidade, interesses e expectativas dos alunos,  pelo menos como ponto de partida, do contrário o trabalho do professor se frustrará. Faz parte da missão do professor assumir riscos.

Num filme que recomendo a todos, DANGEROUS MINDS (Mentes Perigosas, disponível em DVD),  Michelle Pfeiffer protagoniza uma professora designada para ensinar estudantes segregados em uma “sala para alunos especiais”. São de uma rebeldia  e indisciplina bem conhecidas dos que ensinam nas escolas de periferia das grandes cidades. Depois da esperada rejeição inicial por parte dos alunos, ela vai, passo a passo, conquistando-os. Para isso, usa com êxito táticas parecidas com as da professora da Flórida, mas com variações que fazem toda a diferença. A competição Dylan-Dylan que  propõe aos alunos é um exemplo:

Percebendo rapidamente que  seria impossível manter os alunos interessados na poesia de  Dylan Thomas, que fazia parte do programa curricular,  ela  lhes pede que pesquisem um poema de Dylan Thomas que seja parecido em conteúdo  ou tema com a  letra de uma canção de um outro Dylan, o Bob, muito mais acessível aos alunos,  e que já vinham lendo em aulas anteriores.  É a chamada competiçao Dylan-Dylan. O prêmio para os ganhadores será um jantar com a professora num restaurante mais fino, de modo a motivá-los a participarem da gincana.

Os alunos participam ativamente, consultando livros do poeta Dylan Thomas na biblioteca, diante dos olhos incrédulos da bibliotecária, e discutindo os textos em pequenos grupos.

É interessante notar que uma cena anterior à da  proposta da competição nos  remete diretamente à tática da professora da Flórida.  O personagem de Pfeiffer e alunos discutiam o significado da letra de “Mr. Tambourine Man”,  conhecida canção de Bob Dylan, e em determinado momento a professora aventa  a possibilidade de que o tal “Homem do Pandeiro” possa ser um código (metáfora) para um traficante de drogas. Os alunos embarcam totalmente nessa interpretação: estão agora no mundo que conhecem, dos bairros duros em que moram, das pessoas que têm como vizinhos,  e se sentem muito à vontade expandindo a interpretação da professora. Batalha ganha!

Essa tática diverge da usada pela professora da Flórida nos seguintes pontos: os alunos  do filme eram mais velhos, portanto os conceitos abordados não seriam  tão chocantes para eles;  além disso, o objetivo era, partindo de algo mais simples, chegar ao ponto didático programado pela escola: a poesia de Dylan Thomas. Não nos cabe discutir aqui o valor estético de um ou outro poeta, ou a relevância das decisões curriculares da escola, mas ressaltar que a professora no filme foi astuta, subvertendo as normas de forma muito mais sofisticada e menos agressiva que sua colega da Flórida.

Trabalhando numa editora multinacional, tive a oportunidade de dar um treinamento de “gerenciamento de classe” para professores na Jordânia.  O filme Mentes Perigosas tem pontos muito interessantes a esse respeito, mas é um filme de linguagem forte e discute conceitos nada tradicionais, sobretudo para professores de países com uma cultura bem diferente da nossa.  Portanto, temi que seria arriscado apresentá-lo durante meu treinamento. Mas resolvi assumir o risco, depois de discutir com nossos representantes comerciais locais. Qual não foi minha surpresa com a reação dos professores, que, após a exibição do filme, passaram a discutir excitadamente os exemplos mostrados,  procurando formas de adaptar alguns pontos metodológicos à realidade de suas classes. Isso comprova que bons professores são necessariamente pessoas mais abertas a ideias novas e inusuais em qualquer lugar do mundo.

Qual seria então a solução para o professor que deseja se arriscar?  Encontrar um meio termo. Não deixar de se aventurar, e sempre avançar em metodologias  e táticas que sejam novas e que possam surtir efeito mais eficaz na aprendizagem. Mas talvez discutir antecipadamente com colegas, coordenadores e mesmo os pais a possibilidade de usar métodos menos convencionais no ensino de língua e literatura para alunos adolescentes.

Como preconizava o renomado pedagogo Paulo Freire, “ninguém nasce feito, é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos.”

Au revoir

Jorge Sette

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