Gosto de roçar minha língua na língua de Luís de Camões

Não,  caro leitor de curta memória, o título desse post  não faz qualquer referência ao famoso primeiro beijo gay da televisão brasileira (ou melhor, da maior emissora de TV brasileira em horário nobre, porque me parece que outros beijos, menos concorridos  e populares, já houve). Acho que esse assunto já está esgotado.

O título diz respeito ao primeiro verso de uma canção do compositor Caetano Veloso, chamada Língua,  popularizada nos anos oitenta, cuja primeira estrofe segue mais precisamente assim:

Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódia
E um profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa, (etc, etc, etc)

É um hino de amor às idiossincrasias e ao potencial criativo e vibrante da variante brasileira da língua portuguesa. Sem negar sua origem europeia, mas ressaltando o rico substrato local sobre o qual se formou, a gama de influências que a forjaram,  e que a tornaram de uma plasticidade e “antropofagia” invejáveis.

Mas tampouco estou aqui para enaltecer Caetano,  que ele não precisa de mim para isso. Meu ojetivo é alertar o leitor, caso seja professor, aluno e mesmo amigo e parente de estrangeiros,  do aumento espetacular do interesse internacional pela “Última flor do Lácio, inculta e bela” – outra referência à nossa língua, do poeta Olavo Bilac (prometo, esta é a última!).

Evidentemente, as razões econômicas e a dinâmica do mercado, com o Brasil entre as 10 maiores potências econômicas do planeta, e  em pleno crescimento (apesar dos soluços do processo)  são o motivo primordial desse renovado interesse. O fato de termos sido escolhidos os anfitriões da Copa do Mundo neste ano, e das Olímpiadas em 2016, certamente contribui também para esse aumento da popularidade da língua. Afinal, fazer negócios com brasileiros  em sua própria terra, em Português, certamente ajuda.

Além disso,  segundo minhas últimas pesquisas na Wikipédia, o português “é uma das línguas oficiais da União Europeia, do Mercosul, da União de Nações Sul-Americanas, da Organização dos Estados Americanos, da União Africana e dos Países Lusófonos“. E  a encicloplédia online continua, dizendo que “com aproximadamente 280 milhões de falantes, o português é a 5ª língua mais falada no mundo, a 3ª mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul da Terra.”

Se essas não são razões mais do que suficientes para convencer o leitor de que deve se preparar para ou aprender ou ensinar português diante das oportunidades político-eonômicas que se abrem,  eu usaria meus próprios argumentos, inquestionavelmente mais românticos e pessoais. Vamos a eles…

Venhamos a eles:  falaria, por exemplo, dos prazeres únicos de se ler Machado de Assis e José Saramago no original. Indagaria como apreciar a letra da música Vapor Barato, cantada pela cristalina voz de Gal Costa no final do belíssimo e poético filme Terra Estrangeira de Walter Salles, sem entender a nossa língua?  Como mergulhar de cabeça (as metáforas marítimas são sempre muito bem-vindas em se tratando de produtos brasileiros e portugueses)  na trama complicada e nas nuances verbais do violento Cidade de Deus (filme ou livro, pois não acredito que o turista vá se aventurar nessa área da zona oeste da capital carioca), e, mesmo assim,  admito que ele precisaria chegar a um nível mais que intermediário da língua para conseguir decifrar as gírias e a gramática peculiares ao tráfico.

Finalmente, como brasileiros hospitaleiros, é nosso dever lembrar ao gringo que, depois de poucos dias no Rio, uma vontade visceral de adaptar-se  ao local e assumir sua persona carioca, e quiçá ser confundido com os nativos, corroerá  sua alma de imigrante, turista ou mulher de negócios!

Ao estirar-se nas confortáveis cadeiras de praia,  diante de um magnífico marzão em dia de ressaca (e sem poder associar as rebeldes ondas aos olhos de Capitu (OK, quebrei a promessa, fiz  mais uma referência literária local!! Me considero culpado.), com uma caipirinha na mão e o olhar fixo nos  corpos esculturais  das garotas e garotos de Ipanema, que se encontrarão espalhados à sua volta no Posto 9, nosso amigo gringo se perguntará por que não se dedicou mais ao estudo dessa bela língua: “Chomsky, seu sacana – dirá amargurado –  por que não posso ajustar meu LAD (language acquisition device, mecanismo inato, que , segundo o teórico, já vem preparado para absorver a língua nativa quando somos crianças) para a aprendizagem natural e automática do Português?” E prosseguirá: “Deus, vós que sois brasileiro, como poderei celebrar as vitórias e os gols brasileiros da vindoura Copa, e discutir os detalhes dos jogos com esses torcedores bravios, sem fluência no idioma nativo?”

Deus responderá, mas em português, e o gringo não entenderá.

Daí já será tarde demais!

ipanema, Rio

Ipanema, Rio. Clique para aumentar.

Bem, acho que já lhes dei motivos mais do que suficientes para desejarem que suas línguas rocem a de Camões.

Num proximo post, lhes contarei minha experiência de ensinar português para estrangeiros, numa época em que nossa língua nem era tão popular assim, em Lisboa e no Algarve, como falante nativo de PORTUGUÊS “BRASILAIRO” (como se é pronunciado em Portugal).

Au Revoir

Jorge Sette.

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