Meu segredo para aprender inglês…

Há muita informação disponível sobre as estratégias usadas por pessoas que aprenderam, ou mais precisamente, adquiriram, uma segunda língua,  e  que demonstram um desempenho quase de falantes nativos. Basicamente, a distinção que faço aqui entre “aprender” e “adquirir”  é a usada pelo linguista Stephen Krashen, ou, simplificadamente: “aprender” é saber sobre os fatos da língua e poder discuti-los (ou seja, ter informação sobre a gramática, vocabulário, adequação dos registros ao contexto, semântica, etc), ao passo que “adquirir” vai uma pouco mais além: quer dizer usar a língua, falada e escrita,  de forma natural nos diversos contextos em que se requer.

Tecnicalidades à parte, posso ser considerado um falante bem-sucedido de inglês como segunda língua, uma vez que já ensinei a língua, e até mesmo administrei treinamentos para professores de inglês, além de ter trabalhado como consultor  e gerente de marketing para editoras,  usando basicamente o inglês no meu dia a dia profissional.

Digo tudo isso não para me gabar, mas para explicar ao cético leitor que as estratégias pessoais que enumerarei abaixo merecem uma certa credibilidade, dados os resultados atingidos.

Hora de tirar a pipoca do microondas, sentar-se relaxadamente na sua poltrona preferida, e ouvir minha história:

Motivação

Tudo começou há muitos anos,  numa praia paradisíaca no litoral da Paraíba, chamada Acaú, onde eu, meu irmão e 4 primos passávamos as férias de verão (sem nem sequer o conforto de eletricidade ou água corrente) – adianto que essas condições precárias não são um prerequisito para se aprender uma língua estrangeira.

Acaú, PB

Acaú, PB. Clique para aumentar.

Nossa tia havia morado nos EUA e, por algum motivo nunca muito bem esclarecido, entendeu que aos 9 ou 10 anos de idade, dispúnhamos de tempo livre demasiado brincando como selvagens na praia, e deveríamos nos submeter a uma ou duas horas de inglês por dia, com o método do Yázigi, utilizando um toca-fitas de pilhas. Apaixonei-me pela língua – até, quem sabe, por associá-la à beleza primitiva do lugar, ao fato de estarmos de férias, e de que, logo mais à noite, a lua e estrelas brilhariam claríssimas, em consequência  da falta de eletricidade nas casas (acho que estou exagerando no romantismo e começando a digressionar). Em resumo, motivação intrínseca é um fator  primordial na aprendizagem de uma língua.

Autonomia

Ao retornar das férias, segui aprendendo sozinho, agora usando um outro curso chamado LINGUAPHONE, na garagem de casa, nas tardes depois de voltar do Colégio Marista, sonhando que um dia teria a oportunidade de falar a língua com as estrelas dos filmes de Hollywood (chegara o momento da pré-adolescência em que passamos pelo CRUSH pelas celebridades). Assim como hoje, adorava cinema e música americanas, o que fomentava mais ainda o desejo de falar e entender o inglês.

A partir do sexto ano no colégio, começamos a ter aulas formais de inglês no programa, e a proximidade e amizade com dois  excelentes professores que tive a sorte de ter facilitaram ainda mais meu interesse e bom desempenho na língua.

Literatura

Já na universidade, como aluno da Cultura Inglesa, descobri a bem sortida biblioteca da escola, e me joguei compulsivamente na leitura dos READERS (literatura simplificada  e cuidadosamente graduada para o ensino da língua). Fui passando naturalmente de nível a nível na leitura dos livrinhos, consumindo de tudo: clássicos, histórias de detetive, ficção científica e não ficção. Meu interesse e dedicação chamaram a atenção da diretora da escola, que acabou me convidando para um processo de seleção para professores na própria escola. Passei de aluno a professor! Hoje em dia a maioria dos livros que leio continua sendo em inglês, até mesmo pela facilidade de obtê-los no Kindle.

Graded readers

Graded readers. Clique para aumentar.

Exposição à linguagem oral

Esses eram anos pré-video cassete, e internet, de modo que não tínhamos muitas oportunidades de ouvir o inglês. Tudo de que dispúnhamos eram as passagens de compreensão auditiva durante as aulas. Não era suficiente. Eu fazia de tudo para aumentar essa exposição: puxava conversava com os poucos gringos que frequentavam Olinda nos anos oitenta, tentava sintonizar a BBC WORLD SERVICE  nas ondas curtas num antigo rádio em casa, via e revia sessões de cinema. Até que tive a chance de ir morar e estudar na Inglaterra!

Morar no país em que se fala a língua

Minha experiência na Inglaterra foi um sonho. Sair de Recife para o mundo mudou minha vida radicalmente. Abriu minha cabeça e me fez amadurecer da noite para o dia. Quanto ao inglês, nem se fala (ou melhor, só se fala!!!). Evitava o contato com os vários alunos brasileiros que estudavam na King’s School, a escola que eu frequentava em Bournemouth, no sul da Inglaterra.  Cada minuto deveria ser dedicado à exposição à língua inglesa. Fiz amizade com alunos de outras nacionalidades e professores. Ouvia a BBC RADIO 4 em todas as horas que tinha livre, e comecei a comprar audiobooks, em  forma de fita cassette naquela época (comprei lá meu primeiro walkman, que parecia uma mini geladeira, branquinho, com uma portinha para abrir e inserir a fita). Ainda tenho como lembrança. Como consequência da exposição direta à língua e dedicação ao estudo mais formal das regras, passei no CAMBRIDGE PROFICIENCY, e vim para São Paulo ensinar inglês e fazer meu mestrado (imagina em quê?) em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas na PUC.

Jorge Sette: Bournemouth - UK, 1989

Jorge Sette: Bournemouth – UK, 1989. Clique para aumentar.

Bournemouth 1988

Bournemouth 1988. Clique para aumentar.

Espero que essa historieta inspire alguns a aprender uma língua estrangeira.

Au revoir

Jorge Sette.

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