Como (não) escrever como Oscar Wilde!


Sabe-se que os jovens de hoje escrevem muito mais do que os de qualquer geração anterior. Isso se dá sobretudo pelo fato da maior parte da socialização ocorrer online, através de textos. Mas, para muitos, ainda é bastante difícil estruturar um texto mais longo ou talvez um pouco mais formal do que simplesmente escrever “MIAU, MIAU” no quadro de comentários do selfie da amiga com seu gatinho no Facebook.

O processo da escrita

Gostaria portanto  de compartilhar com meus leitores algumas técnicas básicas de processo da escrita para ajudá-los nessa cada vez mais requerida destreza ou habilidade. O que se chama em inglês de “process writing” (que traduzi aqui como o processo da escrita) enfoca as fases ou passos do desenvolvimento da produção de um texto. Professores de línguas tendem a se concentrar na correção do produto final, em vez de estimular, enriquecer com feedback, gerenciar  e ajudar o aluno a lapidar cada fase desse processo. Devemos, escritores e professores, nos concentrar em cada passo individual da rota, o que necessariamente resultará num produto final mais aprimorado.

Os passos do processo da escrita, com os quais a maioria dos especialistas concorda (com pequenas variações quanto à nomenclatura e o número das fases) não devem ser vistos como uma camisa de força. Cada escritor desenvolve sua técnica de criação própria eventualmente, e,  em consequência, uma voz distinta. Mas se você está começando a desenvolver sua escrita, esses passos táticos que delinearemos a seguir serão muito úteis, tenho certeza. Quando você se tornar um Oscar Wilde, Machado de Assis, uma Virginia Woolf ou alguns dos excelentes escritores da revista The New Yorker, talvez faça adaptações ou salte alguns dos passos abaixo. Mas a estrutura profunda é sempre a mesma. Vamos a um resumo desse passos.

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Passos do processo da escrita. Clique na imagem para ampliar.

Fase 1 – Inspiração

Não espere pela musa, a escrita é uma atividade proativa. Vá à luta na busca por ideias. Pense em tópicos que lhe sejam apaixonantes, pesquise assuntos interessantes na Internet e lhes dê um toque pessoal. É importante mostrar sua própria perspectiva, personalizar o assunto que se está discutindo na rede, dar sua opinião. As ideias podem vir dos lugares mais inesperados: jornais, redes sociais, uma notícia de TV, uma foto, um filme, um acontecimento no trânsito. Olhe ao redor, tudo está acontecento.  Colete todas as ideias de forma organizada, para usá-las no futuro (toda essa coleta, e mesmo a geração das ideias, pode ser feita digitalmente: blocos de notas no iPhone, app de mind-mapping para iPad, busca no Google, inspiração nos blogs do Feedly, geradores de ideias automatizados baseados em palavras-chaves (Hubspot oferece um desses para blogueiros), etc. São todos ferramentas válidas na prospecção por tópicos e sua organização, mas só a imaginação humana será capaz de filtrar tudo isso e imprimir seu ângulo e visão únicos.

Fase 2 – Rascunho 

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Alice e o Gato. Clique na imagem para ampliá-la.

Agora é chegada a hora de priorizar todas as grandes e fantásticas ideias que lhe chegaram e foram diligentemente arquivadas, e pô-las no papel, ou no laptop, ou no tablet. Escolha um tópico, investigue quantas e quais das ideias anotadas devem se usar no tratamento específico do assunto (não tente usar tudo, o assunto pode sempre ser retomado depois, com mais detalhes). Pense no espaço físico de que você dispõe para a publicação da sua obra de arte (É um livro? Um blog post? Um comentário no Facebook? Um relatório para seu chefe? Um email para sua namorada estrangeira?). A forma e objetivos variam muito. Divida os parágrafos, selecionando a ideia principal de cada um, decidindo qual é a maneira mais interessante de seccionar e apresentar o texto. Faça quantos rascunhos precisar. Quanto mais, melhor. Determine o que será o início, o meio e o fim. Gosto sempre de começar pelo fim. Sabendo-se onde se quer chegar é sempre mais fácil construir o começo e o meio depois: lembra-se da resposta do Gato para Alice, a do País das Maravilhas?

“Would you tell me, please, which way I ought to go from here?”
“That depends a good deal on where you want to get to,” said the Cat.
“I don’t much care where–” said Alice.
“Then it doesn’t matter which way you go,” said the Cat.

Fase 3 – Revisão

Agora você vai refinar o texto, perguntado-se o que deve manter, acrescentar, cortar, substituir. Se possível, compartilhe-o com alguém de sua confiança para obter retroalimentação e comentários. A opinião dos outros tende sempre a aprimorar nosso trabalho, apontando algo que talvez não tenhamos percebido. Mas também se sinta livre para ignorar algumas das sugestões e manter o que havia escrito antes, tudo dependerá da sua autoconfiança. Considere se realmente terá usado suas melhores ideias e palavras, se escolheu a maneira mais interessante, clara ou convincente de apresentar um ponto de vista. Essa é a hora de aplicar todas as técnicas de pensamento crítico que tenho certeza você já vem desenvolvendo nos últimos anos.

Fase 4 – Edição

Aqui você vai mais a fundo no processo iniciado anteriormente. É a hora de checar e corrigir erros gramaticais, de ortografia, pontuação, adequação do uso de letras maiúsculas; o momento de consultar dicionários, procurar no GOOGLE por outra palavra mais apropriada, ver se JORGE se escreve com J ou G (o pior é que muita gente me pergunta, e estão se referindo à primeira letra não à quarta!!!)

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Clique na imagem para ampliá-la.

Fase 5 – Publicação

Talvez seja ideal pensar um pouco nessa fase antes mesmo de começar a ter as ideias (a coisa da Alice e do Gato de novo). Pois é importante saber se o produto final será um livro, um poster, “infographics”, um artigo, um relatório ou uma apresentação de PowerPoint para seu chefe ou professor. Mas agora é chegado o momento de trabalharmos no visual, nos ajustes finais, antes de compartilharmos o trabalho com o público. Acrescente fotos, ilustrações, gráficos e vídeos, o que você achar que vai adicionar valor ao seu trabalho. Minha opinião é sempre que MENOS é MAIS, ou seja, tendo a publicar trabalhos mais claros  e simples, e não abarrotados de ornamentos. Depois disso, levante-se, tome um café, respire fundo, se encha de coragem, e aperte o botão PUBLICAR.

Pensamentos finais

Como conselhos finais, eu diria que escrever é prática, como quase tudo na vida. A cada blog post, a cada artigo, a cada relatório, a cada email, você melhorará. Tenha como mantra MELHORAR SEMPRE, escrevendo o mais possível. Não meça seu progresso comparando-se com Oscar Wilde, mas com você mesmo ontem. Também não seja tão perfeccionista ao ponto de ficar improdutivo. Oscar Wilde tem um frase interessante sobre o excesso de zelo e perfeccionismo na escrita, e como isso pode ser inútil:

‘I have spent most of the day putting in a comma and the rest of the day taking it out.’

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Oscar Wilde. Clique na imagem para ampliá-la.

Au revoir

Jorge Sette.

E o Rio, hein?


Este blog está começando a parecer um guia turístico, já escrevi sobre meus lugares preferidos em Londres e Sampa, e estou sendo cobrado por meus amigos cariocas para cantar as belezas locais. Como estou certo que linguagem e cultura são inseparáveis, vamos a mais um post sobre outra das cidades mais fantásticas do planeta. Lembram-se do que falei num post anterior? É só seguir a rota das Olimpíadas, e o caro leitor chegará a alguns dos aglomerados urbanos mais especiais do mundo.

Recife versus Sampa versus Rio

Cresci em Recife, moro em Sampa há mais de vinte anos, e vou ao Rio sempre que posso, umas quatro vezes por ano. Recife para mim são as recordações da infância, a família, tapioca,  um verde luminoso e onipresente, e a temperatura da água do mar mais gostosa do mundo. Sampa é o trabalho, a vida adulta, a maturidade com as delícias e dores que a acompanham, além da conveniência de morar no lugar que oferece a melhor infraestrutura do país. Já o Rio…

…Bem, o Rio, e a zona sul em especial, sem querer parecer um clichê de novela da Globo, é certamente o lugar para onde irei depois de morrer, se o paraíso existe. Ipanema é meu conceito de Céu. Uma fantasia de felicidade eterna, que um fim de semana prolongado ou 15 dias de férias podem proporcionar. Claro que é melhor justamente porque dura pouco, e não dá muita chance de se defrontar com os problemas por que passa o carioca típico no seu dia a dia. Nenhuma cidade brasileira oferece a segurança e conforto que são tidos como certos e garantidos nos EUA ou na Europa.  O Rio não é exceção.

Já chegando ao aeroporto no Rio, uma sensação de bem-estar e excitação tomam conta da minha alma. A imaginação voa como os periquitos, tucanos e papagaios do desenho animado RIO, que é a idealização perfeita do espírito carioca. O sotaque aportuguesado, cheio de chiados e Rs aspirados, a ditongação diferenciada das palavras (vela= viela, doze=douze), a informalidade absoluta dos motoristas de táxi, que chegam a cutucá-lo para expressar uma idéia ou fazer-lhe uma pergunta…tudo me encanta. E o cronômetro inexorável começa sua dolorosa contagem regressiva de quanto tempo  ainda falta para o embarque de volta para Sampa. Há tanto que fazer e falar sobre o Rio, que só me atreverei a contar alguns dos programas  que faço quando tenho a sorte de me encontrar na capital carioca.

Ipanema e o Arpoador

Em geral me hospedo num hotelzinho em Ipanema. Nada em Ipanema é barato, mas já que é o bairro que mais frequento e onde faço a maioria dos meus programas, vale a pena o sacrifício, para poder passar o dia todo perambulando pelas redondezas, sem preocupação de pegar um transporte para ir a um hotel noutro bairro.

Sentar-se de frente para o mar ou para o Morro Dois Irmãos, nas cadeiras de praia alugadas das inúmeras barraquinhas que vendem bebidas,  saboreando um açaí geladinho, é uma sensação que não tem preço. Se o dia não estiver nublado (ao menor sinal de nuvens ou possibilidade de chuva todo e qualquer carioca evitará a praia, mas não os paulistanos ou outros turistas, que têm seus dias contados!) já se começa a comentar na praia que “hoje vai dar por do sol”. Isso significa que você terá a oportunidade de, no final do dia, instalar-se na Pedra do Arpoador, na divisão entre Copacabana e Ipanema,  e admirar uma bola de fogo avermelhada mergulhando no mar sob os aplausos de idólatras deslumbrados. Estatisticamente, a região do Arpoador é a área do Brasil onde as pessoas são em média mais felizes. Me pergunto por quê!

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Por do sol, visto da Pedra do Arpoador. CLIQUE EM QUALQUER FOTO PARA VÊ-LA AMPLIADA.

Livraria da Travessa

Depois do por do sol, ainda com a sensação de que presenciei algo único – embora possa se repetir quase todos os dias – em geral me dirijo à Livraria da Travessa, com seu charme, ótimo atendimento,  e a oportunidade de cruzar casualmente com celebridades da televisão brasileira. Não se pede autógrafo no Rio, já que todos estão mais do que acostumados a encontrar artistas e jogadores de futebol em todos os lugares, especialmente na praia. Mas um paulistano ainda pára meio boquiaberto quando percebe que Rodrigo Santoro ou Andrea Beltrão estão tranquilamente vasculhando a prateleira de livros a seu lado na Travessa.

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Livraria da Travessa, Rio.

Urca

Quando saio de Ipanema, em geral pela manhã, que é a hora menos quente do dia, e antes de ir à praia, vou em geral à Urca. Caminhar pela pouco conhecida Pista Claudio Coutinho, que circunda o Pão de Açúcar,  é sempre uma ótima forma de se exercitar. O lugar é cercado de vegetação, que se abre aqui e ali, mostrando trechos magníficos de mar azul, ilhas cercanas e navios que passam ao longe. Micos cruzam seu caminho ou o observam curiosos dos galhos mais baixos das árvores. Tem em geral uma temperatura mais baixa que a da cidade naquele momento. Aproveito depois para fazer um lanche num dos botecos que circundam a praia da Urca e comer empadinhas, casquinhos de caranguejo, ou outros salgadinhos típicos.

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Jorge na Pista Claudio Coutinho, na Urca.

Jardim Botânico

O Jardim Botânico, com cerca de 6500 espécies de plantas, em estufas ou ao ar livre, é outro dos meus passeios favoritos. Sempre que estou no Rio, procuro reservar um tempo para passar por baixo daquelas palmeiras-imperiais centenárias, curtir o orquidário, e tomar um café olhando para o Cristo Redentor, que disputa com o Sol o título de divindade maior do Rio.

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Jorge no Jardim Botânico, Rio.

O que ainda não fiz no Rio: voar de asa delta. Me prometi isso como presente no meu último aniversário, mas como se diz no popular, AMARELEI – tive medo e decidi adiar a empreitada. Fica aqui a promessa de que escreverei neste blog sobre essa experiência assim que for realizada.

Au revoir

Jorge Sette.

Se você vem a São Paulo para a Copa do Mundo…


Com cerca de 19 milhões de habitantes em sua área metropolitana, Sampa, como carinhosamente chamamos esta cidade, é o centro financeiro da América Latina e a maior cidade do hemisfério sul. Acabou de completar 460 aninhos no dia 25 de janeiro passado, e está se preparando para um futuro radiante. Dê uma olhada no meu painel do Pinterest em homenagem ao aniversário de São Paulo (http://www.pinterest.com/jorgesette/são-paulo-460/ ).

Uma das 12 cidades brasileiras escolhidas para sediar os jogos da Copa do Mundo, a partir do próximo 13 de junho, Sampa está esperando um grande número de turistas, tanto de outras cidades brasileiras como do resto do mundo. Estaremos no nosso inverno, com temperaturas mínimas de 10 graus Celsius e tempo seco. É verdade, não temos as belezas naturais do Rio, e nunca fomos a capital do país, mas se você quer uma experiência de brasilidade total, em toda sua miscigenação e cosmopolitismo;  se busca intensa atividade cultural, vida noturna  para todos os gostos e idades,  ou disfrutar da melhor gastronomia do Brasil, este é o lugar para visitar. Welcome!

Em qualquer guia turístico impresso ou online você encontrará centenas de opções de passeios, programas noturnos, museus e lugares para fazer compras. No entanto, neste post você está tendo uma oportunidade única de ler a respeito de 4 dos programas locais que típicos paulistanos como eu fazem no dia a dia, e nos fins de semana. Não se trata de armadilhas para turistas!

Vila Madalena

Vamos começar pelo meu bairro, a Vila Madalena, um dos mais boêmios da cidade, conhecido como o SOHO brasileiro, pela quantidade de galerias de arte, boutiques, bistrôs, cafés, sorveterias, barzinhos e padarias (uma instituição tipicamente paulista) dispersas nas suas colinas arborizadas. Sim, há muito verde em Sampa. É um mito dizer que só temos cinzento e concreto. Intriga de carioca!

Diz a lenda que a quantidade de botecos e bares na Rua Mourato Coelho, uma das principais do bairro,  é tamanha, que, se um desavisado bebedor decidir tomar um único copo de cerveja em cada um deles, entrará em coma alcoólico antes de chegar ao final da rua.  Já, para reforçar a energia do turista que se aventurar a subir e descer nossas ladeiras, recomendo o açaí na tigela da padaria VILA GRANO, que pode ser saboreado a qualquer hora do dia e da noite (aberta 24 horas, 7 dias na semana!)

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Vila Madalena. Clique para ver a foto ampliada.

Avenida Paulista e imediações

Passemos agora à Avenida Paulista, que, com seus 2.8 km de comprimento,  é o centro financeiro da capital. A Paulista é também onde tudo acontece: incluindo as mais diversas manifestações  e protestos políticos, celebrações de final de campeonato de futebol, e a maior parada gay do mundo. Com um calçadão generoso para pedestres, e uma faixa de ciclovia aos domingos, a avenida Paulista é o que temos de mais semelhante a Ipanema (sem o mar e o deslumbrante por do sol visto do Arpoador. Ok, dou o braço a torcer aos cariocas, desta vez).  A Paulista liga o bairro do Paraíso à avenida Consolação (e a piada é que sempre há um consolo se não se chega ao paraíso).  Bem há quem diga que ela só termina na Rua Minas Gerais, depois da Angélica!

O mundo, em toda a sua diversidade, cores e gêneros perambula despreocupadamente pela avenida nos fins de semana, em contraste com os paletós  que caminham apressadamente em direção aos inúmeros escritórios, bancos, hospitais e consulados da região de segunda-feira a sexta.  Uma média de 1.5 milhões de pessoas circulam na Paulista por dia. É também na região da Paulista que temos praticamente os únicos cinemas de rua da cidade (em oposicão aos de shopping centers), com seu charme e poesia. A boa notícia é que um dos mais tradicionais, fechado há cerca de 3 anos, vai reabrir agora: o CINE BELAS ARTES, na esquina da Paulista com a Av. Consolação.

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Avenida Paulista

A Livraria Cultura

Há muitas filiais desta livraria na cidade, e até em outras partes do Brasil também. Mas, para mim, a que se situa no interior do Conjunto Nacional (com duas lojas, e ainda abrigando um disputado coffee shop, um cinema e um teatro) é o centro intelectual de Sampa. O lugar tem uma vibração e atmosfera únicas, bem especiais, com gente entrando e saindo das suas amplas instalações todos os dias da semana. Temo pelo seu futuro, baseando-me no fechamento de grandes livrarias no mundo todo (o fechamento que mais me traumatizou até agora foi o da Borders, nos EUA, que eu adorava).  Mas acho que  o pessoal da Livraria  Cultura está no caminho certo, já começando a transformar o lugar num ponto de encontro cultural, e num imenso showroom para futuras vendas a partir do seu próprio leitor eletrônico, o KOBO.

A Pinacoteca do Estado, Estação da Luz e Museu da Língua Portuguesa

Situada no agradável Parque da Luz, a Pinacoteca é o mais antigo museu de Sampa e um dos mais famosos museus brasileiros, com um acervo da mais de 8000 obras, a maioria de artistas brasileiros dos séculos XIX e XX. O  prédio do museu em si já vale uma visita, pela magnificência de sua arquitetura. E se houver tempo, aproveite a oportunidade para ver obras de Di Cavalcanti, Almeida Junior, Anita Mafaltti, Tarsila do Amaral, etc.  Da porta do museu, pode-se também admirar o deslumbrante prédio da Estação ferroviária da Luz (que também acede a uma linha de metrô, para sua conveniência)  e, se cruzar a avenida, terá acesso ao Museu da Língua Portuguesa, que  promove de forma muito criativa  e interessante a língua nacional.

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Estação da Luz

E por falar na língua portuguesa, se você não é brasileiro, não esqueça de aprender algumas expressões e palavras essenciais como preparação para sua visita ao Brasil durante o mundial de futebol. O inglês, ou qualquer outra língua estrangeira, é muito pouco falado no Brasil. Estima-se que menos de 3% da população seja fluente no inglês.  Acabamos de ler nos jornais, por exemplo, que alunos universitários enviados ao exterior para um programa de iniciação científica subsidiado pelo governo, chamado CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS, correm o risco de voltar ao Brasil,  pois seu nível linguístico em inglês (mesmo depois de seis meses no exterior) não os qualifica para aceite pelas universidades que participam do programa.  Por isso, mãos à obra, você ainda tem alguns meses para praticar seu português.

Por hoje é só.

Au revoir

Jorge Sette.

Philomena – uma pequena gema


“We shall not cease from exploration
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.”

T.S. Elliot

(Este artigo contém SPOILERS sobre o filme Philomena. Adie a leitura, se pretende se surpreender com o filme)

É assim, citando essa passagem de T.S. Elliot, que Martin (Steve Coogan), o jornalista que acompanha a ingênua Philomena (Judi Dench) na sua busca pelo filho ilegítimo, que lhe foi tomado por freiras católicas e vendido a uma família americana há 50 anos, responde ao comentário da companheira de que haviam voltado ao ponto de partida (“We’ve come full circle”) no final da longa jornada pela qual passaram.

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Judi Dench and Steve Coogan, em PHILOMENA

A busca a leva da Grã-Bretanha a Washington, em companhia do jornalista, que,  contratado por um tabloide,  escreverá um cínico artigo de  “interesse humano”, explorando o lado mais popularesco, açurado e sensacionalista da história,  comprometendo-se, em recompensa,  a bancar todos os custos da procura do filho “roubado”. Mas, com o desenvolvimento da relação entre ambos, ele começa a perceber que a história de Philomena é bem mais complexa e dolorosa, e talvez não mereça este tipo de exposição pública.

Na juventude, passada na Irlanda no início da década de 50, Philomena, depois de um breve flerte, cede aos impulsos e “desejos da carne”,  e engravida. Seu pai a envia à Abadia de Sean Ross em Roscrea para o parto. As freiras, na mais estrita rigidez moral e religiosa, como convém à época, consideram aquilo um pecado grave, pelo qual Philomena deve penar, tanto na dor do parto difícil, como na obrigação de trabalhar duro na lavanderia do convento pelos próximos 4 anos, como uma escrava,  até quitar sua dívida de 200 libras  pelas despesas assumidas pelas freiras.  Seu filho, Antony,  é finalmente “vendido” para uma família americana.

A própria Philomena, como boa católica, internaliza de tal forma os preceitos religiosos, que se sente inteiramente responsável e culpada pelo seu próprio destino, e está de acordo com as punições infligidas pelas freiras. Por 50 anos, no entanto, nunca esqueceu esse filho, e agora, com ajuda da filha que teve posteriormente, e de um jornalista desempregado, decide que precisa reencontrá-lo, simplesmente para saber o que foi feito dele. Já havia tentado antes, mas sempre se defrontou com um paredão de resistência das freiras, uma vez que, por espontânea vontade, assinara um documento abdicando da criança e prometendo jamais procurá-la depois da adoção.

Usando os contatos que tem nos EUA, onde já trabalhara anteriormente, Martin finalmente descobre que Antony, que passou a chamar-se Michael na nova família, morrera já há alguns anos. Era um bem-sucedido advogado trabalhando na administração Reagan e… gay, escondendo esse fato da sua vida pública, como era comum na época. Morrera de AIDS.

“Philomena”, com personagens complexos,  personificados por fulgurantes atuações de Dench e Coogan, é uma história  aparentemente simples e direta, emocionando pela honestidade e carisma dos personagens principais. Nada de sentimentalismos ou grandes arroubos emocionais: tudo muito contido, sutil, com momentos de humor, mas profundamente pungente. Além disso, a beleza física de JUDI DENCH enche os olhos do espectador. Beleza que resiste ao tempo, não APESAR das profundas rugas que se cruzam nas mais diversas direções no seu rosto de 80 anos, frequentemente em close-up na tela, mas justamente POR CAUSA delas!

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Judi Dench, em PHILOMENA.

Mas o filme é mais profundo. Um dos temas é o claro paralelo entre mãe e filho, que são “pecadores” irredimíveis aos olhos da igreja católica, enfrentando os preconceitos mais violentos e típicos das diferentes épocas  e sociedades em que viveram, e recebendo por suas transgressões (o amor físico fora dos padrões estabelecidos) as punições mais cabíveis. Também ambos se sentiam culpados e se envergonhavam da sua conduta. Estigmatizados pela sociedade e por si próprios.

Outro tema interessante é o confronto entre a espiritualidade de Philomena – cujo nome em grego quer dizer AMIGA DA FORÇA, e também o nome de uma obscura santa mártir –  e o materialismo ateu e cínico de Martin. Fica evidente no filme que, apesar de todo o sofrimento e sentimento de culpa causados pela rigidez da religiosidade simplória de Philomena,  ela parece ser uma pessoa mais em paz consigo do que Martin, que não parece ser bem  sucedido na vida pessoal ou profissional. Os  fantasmas de Martin são bem seculares e mundanos, mas não deixam de ser fantasmas, assim como o filho de Philomena.

Me ocorreu também que o filme pode ser visto como uma metáfora da aceitação de uma mãe pela orientação sexual do filho. Ou seja, essa separação de 50 anos seria o tempo que Philomena levou para digerir o fato e aceitá-la como mais um aspecto da experiência  e diversidade humana (apesar de no contexto do filme, no nível mais superficial da história, a mãe não expressar a menor surpresa ou ressentimento quando lhe falam sobre as preferências de Antony/Michael, dizendo que sempre soube que o filho era um “gay homosexual”, na sua impagável simplicidade). Mas talvez essa interpretação possa estar um pouco longe das intenções do diretor Stephen Frears. Não convém explorá-la mais aqui.

Agora é nossa vez de voltar ao início deste artigo, e concluir o significado do poema de Elliot no contexto do filme.

Como no poema, sim, pelo menos fisicamente, Philomena e Martin voltam ao ponto de partida, à Abadia de Sean Ross. Mas, assim como estamos noutra estação do ano, com os campos cobertos de neve,  algo mudou: os protagonistas têm agora uma perspectiva totalmente diferente, a viagem e as descobertas os transformaram, embora suas convicções mais profundas se mantenham as mesmas.  Aprenderam a aceitar um no outro as diferenças. Philomena concorda que Martin publique a história (o que inevitavelmente trará críticas à igreja que sempre protegeu) e ele lhe presenteia uma estatueta de Cristo para  adornar a lápide do filho. Parece haver uma negociação em processo, um visível início de aceitação e respeito pelo ponto de vista alheio.

Au Revoir

Jorge Sette.

Alongando os músculos da língua


Vivemos num mundo multicultural, multilíngue, e de economia globalizada. A comunicação se dá basicamente através da internet, sendo o inglês a língua com maior número de usuários online, seguida pelo chinês, espanhol, japonês e português (acessem esse link para maiores detalhes: http://www.internetworldstats.com/ ).

No WordPress, a plataforma na qual você está lendo esse blog, 66,7% do conteúdo “postado” é em inglês. Não falar pelo menos duas das línguas mais importantes na internet é um atestado de misantropia, ou mais precisamente, um suicídio social. Abaixo, cobrirei os pontos mais importantes que influenciam a boa aprendizagem de uma língua estrangeira.

Motivação

Há duas palavras-chaves para se adquirir uma língua estrangeira, motivação e imersão. Vamos discuti-las em parágrafos separarados. Os especialistas consideram dois tipos básicos de motivação: a extrínsica e a intrínseca. A motivação extrínsica é aquela que depende de fatores externos e práticos. Nos dedicamos a aprender uma língua, por exemplo, para conseguir um emprego, ou uma promoção, ou um melhor salário. Ou porque a bolsa da pós-graduação exige que se fale um idioma estrangeiro. A motivação intrínseca, por outro lado, diz respeito a razões e motivos mais emotivos ou românticos. Decidimos aprender a língua, por exemplo, porque nos identificamos com a cultura de um certo povo, e para participar mais completamente dessa experiência necessitamos entender e nos fazer entender pelos falantes nativos. Por cultura, me refiro a todos os hábitos e costumes de um povo, sua arte, literatura, cinema, teatro, música, etc. É sabido que a motivação intrínseca é mais eficaz que a extrínseca, por envolver fatores emocionais e afetivos, tão fundamentais em qualquer processo de aprendizagem.

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O essencial componente lúdico da aprendizagem: “Children teaching a cat to dance”,  1666, Jan Steen.

Imersão

Quanto mais nos expomos ao insumo (input) linguístico, mais rapida e eficientemente se aprende uma língua estrangeira. Portanto a sugestão é aumentar ao máximo o contato que se tem com a língua: estar sempre procurando acessar falantes nativos (através das redes sociais, por exemplo); ler na língua-alvo (recomendo que a leitura passe por uma processo de avanço gradual, usando-se  a princípio os chamados “readers”, livrinhos simplificados feitos especialmente para o ensino da língua, disponíveis em varias editoras, antes de passar à literatura original); filmes, videos, jogos eletrônicos, clips do YouTube, e o que mais lhe dê acesso ao idioma. Essa exposição deve ser diária e ininterrupta. Duas horas no mínimo.  Acho que a aprendizagem de um idioma através de letras de música um pouco superestimado (mas isso depende muito do estilo e gosto próprios). Minha experiência é que tanto as letras  de música popular como a poesia mais tradicional são mais adequadas a estágios mais avançados do desenvolvimento linguístico, uma vez que na primeira há muitas gírias e expressões locais, e na outra, palavras e estruturas gramaticais incomuns, pois faz parte da natureza dessa arte experimentar com a língua. Isso pode tornar o texto indecifrável para um falante não nativo. Mas o desafio também pode ser motivador.

Dois pontos importantes para finalizarmos essa seção: escolha conteúdos que lhe deem prazer e que não estejam muito acima do seu nível atual na língua (há maneiras, por exemplo, de se controlar isso, como o uso de legendas em inglês nos filmes em DVD, ou vídeos mais curtos, ou que tratem de temas que você já conhece na primeira língua). Há estudos  científicos que corroboram esses conselhos: o primeiro é a teoria do “comprehensible input”, do linguista Krashen, que alerta que a língua que se ouve ou lê deve ser inteligível para o aluno, oferecendo um contexto que facilite a identificação das palavras ou estruturas,  ainda que desconhecidas (portanto não tente ler Shakespeare na aula número 1). O outro é uma teoria que se chama CLIL (content and language integrated learning), que afirma que a melhor maneira de aprender uma língua é achá-la dentro de um contexto natural  e de interesse para o aluno (artigo de revista, video de YouTube, livro etc), de modo que a a mensagem seja mais importante que a FORMA em que a língua é apresentada. A língua nesse caso serve de veículo, de meio para se atingir um fim específico, que é o entretenimento ou a informação.

Devemos frequentar a escola tradicional?

Aqui acho bastante cabível fazer uma analogia entre a aprendizagem de língua e seguir um programa de preparação física (fitness, como se costuma dizer hoje, mesmo em português). Há diversas opções que se enquadram ou não ao estido de vida de cada um: você pode frequentar uma academia, em um programa intensivo ou mais ameno. Contratar um personal trainer, se necessita de uma atenção mais especial, e  caso tenha somente alguns horários disponíveis. Ou, se tem muita autodisciplina, simplesmente comprar o livro Body for Life de Bill Phillips (editora Harper Collins, 1999), e segui-lo sozinho. Pode-se também combinar diferentes opções. Eu já fiz todas essas, em diferentes épocas de minha vida. Agora estou tentando uma experiência nova: passar o dia no sofá, lendo, estudando e escrevendo esse blog para averiguar se isso me dará os músculos de que necessito para arrasar de sunga em Ipanema. Não, nunca tentei os vídeos aeróbicos de Jane Fonda: ainda estava no berço.

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Body For Life, Bill Phillips.

Bem, com a aprendizagem de língua se dá o mesmo: escolas tradicionais com vários alunos na sala e um professor dinâmico pode ser muito divertido e relaxante depois de uma dia puxado de trabalho. Professor particular é caro, mas dedicará toda a atenção a suas necessidades individuais. Ele também inevitavelmente se tornará seu psicoterapeuta, portanto escolha bem. Cursos online estão em alta, oferecendo todas as vantagens da automatização do ensino, fazendo melhor o que máquinas fazem melhor, e ainda adicionando acesso a sessões tutoriais agendadas com professores nativos e  acesso a comunidades virtuais, para o intercâmbio de ideias com outros alunos estrangeiros. Essas são só algumas das opções, e podem ser combinadas de forma bem criativa e eficaz.

Para o resto da vida

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Aprender uma língua estrangeira é como assistir a OS SIMPSONS: sempre prazeroso e sem data marcada para acabar.

Outro ponto que devemos ressaltar é que aprendizagem de uma língua estrangeira é um processo contínuo, sem fim definido, assim como no caso da primeira língua. Há níveis de progresso claramente balizados ao longo do caminho, que lhe permitirão decidir se já chegou onde quer e onde precisa (a medição se dá através dos chamados exames internacionais, que ratificam seu nível de inglês e adequação para o bom desempenho de diversas funções e atividades). Procure adicionar DIVERSÃO ao longo do processo, para motivá-lo,  já que o caminho poderá ser longo.  É essencial que a jornada proporcione prazer. Pense em aprendizagem de língua mais como assistir a OS SIMPSONS que a BREAKING BAD. Ambos são maravilhosos, mas a trajetória de WALTER WHITE inevitavelmete terá um fim (eu já sei qual é, você sabe? Ou ainda está esperando pelo NETFLIX?). Já em OS SIMPSONS não há perigo de Maggy largar a chupeta e casar-se, de vermos a formatura de Lisa, ou Bart cumprindo pena na cadeia por um delito cometido depois da maioridade.  It goes on forever…

Por hoje é só.

Au revoir

Jorge Sette.

Se “ELA” fosse uma professora…


A estreia do filme Ela (Her) se deu hoje em São Paulo.  Como havia lido os  comentários e ouvido sobre as premiações, minha expectativa era grande: era o primeiro da fila no cinema que escolhi. A história me interessava muitíssimo.

(Aviso: este artigo contém SPOILERS sobre o filme HER.)

Entrei no cinema 10 min antes do horário previsto para o começo do filme, e evidentemente, tive que checar meu iPad e iPhone umas duzentas vezes para preencher o vazio desse interminável intervalo. Ah, a ansiedade desses tempos modernos!  Fiz também a SIRI uma ou duas perguntas e ela pediu para acessar a minha conta do Twitter para a busca.  Me chama HORGUÊ  a gracinha. Gringa. Mas deu a resposta. Agora a situação piorara, o filme não começou ao final desse tempo. Quinze minutos depois da hora prevista, ainda não havia nem sinal de vida na cabine de projeção. Mais uns cinco minutos, e uma funcionária entrou espavorida e disse que houvera um imprevisto técnico.  O início do filme atrasaria mais um pouco. Ótimo prenúncio para um filme cujo história envolve um homem  que se apaixona por um sistema operacional: uma falha na tecnologia! Pressenti que o relacionamento retratado na tela tinha grande chance de ser um vôo turbulento!

O filme não decepciona, muito pelo contrário. Se não é exatamente revolucionário nas ideias, nos faz pensar muito sobre o que é a essência do ser humano e seus relacionamentos. Resumo da história:  Theodore (Joaquin Phoenix), separado da esposa, está prestes a assinar os papeis do divórcio, mas hesita, assim como ela, pois afinal de contas, trata-se de desfazer-se de toda uma vida construída juntos, desde jovens. Ele se sente solitário, e,  depois de experimentar algumas alternativas para conectar-se com outros seres humanos – incluindo linhas de sexo por telefone (numa cena hilariante, por sinal) – compra e se apaixona por um sistema operacional que se autodenomina Samantha (representado pela sensualíssima voz de Scarlett Johansson). O “OS” (operational system) tem um inteligência artificial  que se desenvolve e aprende, à medida que interage com humanos e outras máquinas.

Se o motivo do divórcio eram os problemas emocionais por que todos os casais passam, quando cada parte inevitavelmente muda e evolui, distanciando-se do parceiro, como seria lidar com isso numa relação com um computador que aprende constantemente e se torna cada vez mais autoconsciente? Não vou entrar em detalhes para não estragar o prazer de quem vai assisitir ao filme,  mas a reposta é: NÃO MUITO DIFERENTE!

her-movie

HER, the movie. Theodore and Samantha.

Imaginei como seria “HER” num contexto da Educação,  com programas e sistemas operacionais substituindo professores humanos. Afinal de contas, blended learning já é uma realidade sem volta. Obviamente, as grandes vantagens de interagir com uma máquina são a retroalimentação imediata, a personalização do ensino, a adaptabilidade da rota da aprendizagem ao progresso do aluno, e a flexibilidade do acesso online, permitindo que o aluno aprenda onde e quando queira. Essas atividades são indiscutivelmente executadas melhor por um computador.

Além disso, assim como no filme, o relacionamento  entre aluno e professor pode também facilmente prescindir da fisicalidade do contato.

Samantha,  o OS, no entanto, evolui a tal ponto ao longo da história que não lhe interessam mais os problemas humanos, está num nível muito superior de busca e preocupações existenciais, o que compromete seu relacionamento. Theodore busca então consolo numa amiga, real,  humana. Dessa forma, o filme parece concluir que seres humanos sempre necessitarão do contato com um semelhante,  alguém tão falho, inseguro, carente e, principalmente, dotado de um mesmo nível de complexidade emocional (nem superior,  nem inferior). Essa necessidade vale tanto para uma relação pessoal, como acadêmica, ou corporativa.

Claro que, dada a velocidade das mudanças tecnológicas por que passamos, não me aventuraria a prever exatamente o papel que o professor desempenhará amanhã.  Mas, se tomamos como exemplo a lógica do filme, a maior vantagem do ser humano está justamente na sua IMPERFEIÇÃO. A nossa própria fragilidade, se usada para potencializar e informar a empatia (a habilidade de sentir como o outro), será provavelmente a ferramenta que professores humanos disporão para se fazerem indispensáveis a seus alunos.

Au revoir

Jorge Sette.

Ensinando Português “BRASILAIRO” em Portugal


Depois de morar na Inglaterra por quase 18 meses em 88/89, a coceira de viajar recomeçou, e como havia tido o convite  de um colega de escola  em Bournemouth para visitá-lo no Algarve, resolvi aproveitar a aportunidade e passar um tempo em Portugal.  Chegando ao aeroporto em Portugal,  percebi já uma familiaridade brasileira na imigração, uma atmosfera bem diferente da formalidade e frieza britânicas. Também, saindo à rua,  me chamou a atenção a luminosidade do lugar, se comparada à qual  me havia exposto nos últimos 18 meses. Praticamente não houvera verão em 88 na Inglaterra.

No avião, soubera por um outro brasileiro de uma “pousada” no centro  de Lisboa, com preços acessíveis e uma dona muito simpática.  Uma vez que não fizera reserva, resolvi ligar de um telefone público para a tal senhora da pousada.  Já ao telefone senti dificuldade em entender o sotaque lusitano, e me parecia que a dona da pousada se dirigia a mim de forma estranha: ‘Sim, senhôra, temos vagas! ‘  Não podia acreditar que ela estivesse  confundindo meu sexo, pois minha voz mudara muito cedo na adolescência, e  não havia dúvidas de que depois dos vinte anos eu tinha defitivamente o timbre masculino na voz! Resolvi passar a falar em inglês com ela, daí foi que me dei conta de que o seu uso de “SENHÔRRRRRR (A)  era apenas uma questão de sotaque! Definitivamente, não estávamos no Brasil.

Instalado na pousada, saí imediatamente a procurar emprego.  Havia a necessidade de regularizar uns tais de RECIBOS VERDES para trabalhar legalmente, e dei início ao processo. Não havia demanda para professores de inglês, pois havia muitos ingleses na região,  e eles ocupavam os cargos, mas não tive problemas em me distinguir como PROFESSOR DE PORTUGUÊS BRASILAIRO, como dizem por lá, e logo logo tinha emprego em duas escolas.

Claro que o ensino de português como língua estrangeira não dispunha dos mesmos avanços metodológicos  e materiais didáticos  que o ensino de inglês na época. Além disso, eu havia sido professor na Cultura Inglesa de Recife, que, além de usar os livros didáticos mais atuais do mercado, se destacava pela imensa quantidade e qualidade de materiais didáticos extras disponíveis na sala dos professores. Havia material  suplementar para qualquer ponto linguístico que se precisasse ensinar.  Portanto estranhei bastante a carência de recursos  no começo.

Eu era o único professor  brasileiro nas duas escolas em Portugal. Ou seja, tudo estava sob minha responsabilidade: desde a escolha dos livros, criação da metodologia, seleção de materiais suplementares.  Desafios excitantes. Além disso, era ótimo sentir-se falante nativo da língua, um gostinho que obviamente nunca tivera ao ensinar inglês.

Jorge preparando aulas de português para estrangeiros. Lisboa, 1989.

Jorge preparando aulas de português para estrangeiros. Lisboa, 1989. Clique para aumentar.

Tive alunos bem interessantes.  Como a demanda por português brasileiro não era tão grande na época, em geral eram aulas individuais. Todos os meus alunos, tanto em Lisboa, como depois no Algarve, eram alemães. Havia também uma suíça, de mãe brasileira.

Tive uma aluna  alemã que se dizia escritora feminista, adorava Caetano Veloso, e me levou a um show dele em Lisboa (pagando a minha entrada). O show foi maravilhoso (nunca vira Caetano ao vivo no Brasil), apesar de me sentir um pouco constrangido quando a aluna cantava a plenos pulmões “réptil camaleoa” acompanhando o cantor: como o leitor deve saber, o verso original, sem a adaptação criativa da minha aluna, seria  “rapte-me, camaleoa!”. Claro que a primeira coisa que fiz  foi ensinar-lhe a letra na próxima aula, e quando vi a surpresa nos olhos dela, não tive coragem de comentar o erro anterior, ela havia notado, sem dúvida!

Tive ainda, como alunos,  um casal de operários  alemães que se mudaria para o Brasil para trabalhar com Lula e apoiá-lo na campanha presidencial de 1989.

Logo depois,  uma das escolas me convidou para ensinar  na sua filial em Faro, no Algarve.  Ali, tive um aluno alemão, executivo da Siemmens, que viria morar no Rio, e a tal aluna suíça, filha de brasileira, que já falava seis línguas. As aulas dos dois eram separadas, mas fazíamos muitos passeios juntos pelo sul de Portugal, que eram na verdade uma continuação das aulas. Me sentia um pouco como Maggie Smith no filme Primavera de Uma Solteirona, saindo em excursões e jantando com os alunos. Só que todos eram mais velhos que eu!

Engraçado como ser falante nativo da língua que se ensina pode levá-lo a surpreender-se com pontos linguísticos sobre  os quais nunca cogitara antes: um aluno me perguntou a regra de uso do subjuntivo depois das conjunções APESAR DE QUE, EMBORA, SE, etc….não soube explicar…acho que até hoje não sei. Também aprendi muito sobre as diferenças entre o português brasileiro e o lusitano.  Até mesmo com os próprios alunos. A listinha abaixo  (do site http://www.soportugues.com.br) lhes dará uma idéia, por exemplo, de diferenças de vocabulário que podem causar-lhes certos problemas:

Português do Brasil
Português de Portugal
abridor tira-cápsulas
açougue talho
aeromoça hospedeira de bordo
apostila sebenta
bala rebuçado
banheiro casa de banho
cafezinho bica
caixa, caixinha boceta
calcinha cueca
carteira de identidade bilhete de identidade
carteira de motorista carta de condução
celular telemóvel
conversível descapotável
faixa de pedestres passadeira
fila fila ou bicha (gíria)
geladeira frigorífico
grampeador agrafador
história em quadrinhos banda desenhada
injeção injeção ou pica (gíria)
meias peúgas
ônibus autocarro
pedestre peão
ponto de ônibus paragem
professor particular explicador
sanduíche sandes
sorvete gelado
suco sumo
trem comboio
vitrine montra
xícara chávena

Bem, só não havia “telemóvel” naquela época! Por hoje é só. Mais sobre ensino/aprendizagem de línguas num futuro próximo.

Au revoir.

Jorge Sette

Gosto de roçar minha língua na língua de Luís de Camões


Não,  caro leitor de curta memória, o título desse post  não faz qualquer referência ao famoso primeiro beijo gay da televisão brasileira (ou melhor, da maior emissora de TV brasileira em horário nobre, porque me parece que outros beijos, menos concorridos  e populares, já houve). Acho que esse assunto já está esgotado.

O título diz respeito ao primeiro verso de uma canção do compositor Caetano Veloso, chamada Língua,  popularizada nos anos oitenta, cuja primeira estrofe segue mais precisamente assim:

Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódia
E um profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa, (etc, etc, etc)

É um hino de amor às idiossincrasias e ao potencial criativo e vibrante da variante brasileira da língua portuguesa. Sem negar sua origem europeia, mas ressaltando o rico substrato local sobre o qual se formou, a gama de influências que a forjaram,  e que a tornaram de uma plasticidade e “antropofagia” invejáveis.

Mas tampouco estou aqui para enaltecer Caetano,  que ele não precisa de mim para isso. Meu ojetivo é alertar o leitor, caso seja professor, aluno e mesmo amigo e parente de estrangeiros,  do aumento espetacular do interesse internacional pela “Última flor do Lácio, inculta e bela” – outra referência à nossa língua, do poeta Olavo Bilac (prometo, esta é a última!).

Evidentemente, as razões econômicas e a dinâmica do mercado, com o Brasil entre as 10 maiores potências econômicas do planeta, e  em pleno crescimento (apesar dos soluços do processo)  são o motivo primordial desse renovado interesse. O fato de termos sido escolhidos os anfitriões da Copa do Mundo neste ano, e das Olímpiadas em 2016, certamente contribui também para esse aumento da popularidade da língua. Afinal, fazer negócios com brasileiros  em sua própria terra, em Português, certamente ajuda.

Além disso,  segundo minhas últimas pesquisas na Wikipédia, o português “é uma das línguas oficiais da União Europeia, do Mercosul, da União de Nações Sul-Americanas, da Organização dos Estados Americanos, da União Africana e dos Países Lusófonos“. E  a encicloplédia online continua, dizendo que “com aproximadamente 280 milhões de falantes, o português é a 5ª língua mais falada no mundo, a 3ª mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul da Terra.”

Se essas não são razões mais do que suficientes para convencer o leitor de que deve se preparar para ou aprender ou ensinar português diante das oportunidades político-eonômicas que se abrem,  eu usaria meus próprios argumentos, inquestionavelmente mais românticos e pessoais. Vamos a eles…

Venhamos a eles:  falaria, por exemplo, dos prazeres únicos de se ler Machado de Assis e José Saramago no original. Indagaria como apreciar a letra da música Vapor Barato, cantada pela cristalina voz de Gal Costa no final do belíssimo e poético filme Terra Estrangeira de Walter Salles, sem entender a nossa língua?  Como mergulhar de cabeça (as metáforas marítimas são sempre muito bem-vindas em se tratando de produtos brasileiros e portugueses)  na trama complicada e nas nuances verbais do violento Cidade de Deus (filme ou livro, pois não acredito que o turista vá se aventurar nessa área da zona oeste da capital carioca), e, mesmo assim,  admito que ele precisaria chegar a um nível mais que intermediário da língua para conseguir decifrar as gírias e a gramática peculiares ao tráfico.

Finalmente, como brasileiros hospitaleiros, é nosso dever lembrar ao gringo que, depois de poucos dias no Rio, uma vontade visceral de adaptar-se  ao local e assumir sua persona carioca, e quiçá ser confundido com os nativos, corroerá  sua alma de imigrante, turista ou mulher de negócios!

Ao estirar-se nas confortáveis cadeiras de praia,  diante de um magnífico marzão em dia de ressaca (e sem poder associar as rebeldes ondas aos olhos de Capitu (OK, quebrei a promessa, fiz  mais uma referência literária local!! Me considero culpado.), com uma caipirinha na mão e o olhar fixo nos  corpos esculturais  das garotas e garotos de Ipanema, que se encontrarão espalhados à sua volta no Posto 9, nosso amigo gringo se perguntará por que não se dedicou mais ao estudo dessa bela língua: “Chomsky, seu sacana – dirá amargurado –  por que não posso ajustar meu LAD (language acquisition device, mecanismo inato, que , segundo o teórico, já vem preparado para absorver a língua nativa quando somos crianças) para a aprendizagem natural e automática do Português?” E prosseguirá: “Deus, vós que sois brasileiro, como poderei celebrar as vitórias e os gols brasileiros da vindoura Copa, e discutir os detalhes dos jogos com esses torcedores bravios, sem fluência no idioma nativo?”

Deus responderá, mas em português, e o gringo não entenderá.

Daí já será tarde demais!

ipanema, Rio

Ipanema, Rio. Clique para aumentar.

Bem, acho que já lhes dei motivos mais do que suficientes para desejarem que suas línguas rocem a de Camões.

Num proximo post, lhes contarei minha experiência de ensinar português para estrangeiros, numa época em que nossa língua nem era tão popular assim, em Lisboa e no Algarve, como falante nativo de PORTUGUÊS “BRASILAIRO” (como se é pronunciado em Portugal).

Au Revoir

Jorge Sette.