Carnaval, Baco e Aprendizagem de línguas


Os que acompanham meus posts neste blog, meus amigos de Facebook e seguidores de Twitter já devem ter notado que tenho uma certa queda por pinturas, esculturas e design de forma geral. Fui também professor de línguas e teacher trainer por muitos anos. Portanto, nada mais natural do que conjugar paixões e habilidades num veículo educativo impactante e prazeroso. Bem, essas são minhas razões e motivos pessoais para combinar arte e ensino de línguas em instrumentos e objetos didáticos específicos: tenho no momento três ebooks publicados na AMAZON sobre o tema com atividades suplementares para professores de inglês envolvendo obras de Matisse, Picasso e Caravaggio.

Havendo exposto meu prazer na produção desses instrumentos, como acho que isso possa ser relevante para alunos e professores? A citação abaixo pode começar a ajudar a explicar meus objetivos:

georgia-okeeffe-1

Georgia O’Keeffe

“I found I could say things with color and shapes that I couldn’t say any other way – things I had no words for”Georgia O’Keeffe.

Ou seja, as artes visuais são uma complementação da expressão verbal. Se não consigo comunicar pela fala ou escrita, mostro. E assim, meu trabalho como professor  de línguas, e, num âmbito maior, como educador,  se completa. E a aprendizagem do aluno de línguas se enriquece com algo que está fora do universo linguístico, mas que se integra a ele, acrescentando-lhe novas dimensões.

Entre as possibilidades de expressar o não verbal, está a capacidade da Arte de inspirar emoções, através de luzes, cores e formas.  É capaz de traduzir a beleza de uma forma diferente da língua.

Outro aspecto interessante é que, usando arte, estamos acrescentando conteúdo ao ensino de língua. Faço parte da corrente dos que acreditam plenamente no poder de CLIL  (“content and language integrated learning”) para a eficácia da aprendizagem. Ou seja, exceto no caso da poesia e da literatura, a língua não é um fim em si mesma, mas um canal para veicularmos toda sorte de assuntos, tópicos, e conteúdos de forma geral. O aluno de inglês em geral quer a língua como ferramenta para uso em sua área específica de atuação profissional ou acadêmica. Poucos se tornarão escritores ou poetas. Portanto, o uso da arte visual pode nos ajudar de forma criativa a discutir assuntos como mitologia, história, profissões, geografia, política, violência, religião, ou qualquer outro tópico do interesse do seu público. Tudo isso com um poderoso invólucro de emoção, força expressiva e beleza. A arte visual é interdisciplinar por sua própria natureza. Tudo que você precisa fazer é escolher o artista mais adequado para um certo tema.

Para concluir, gostaria apenas de contar uma experiência pessoal, que é bem pertinente neste sábado momesco em que escrevo este texto.  Era aluno de Letras na Universidade Católica de Recife na época, e tinha uma dedicada professora de Literatura Portuguesa. Não preciso dizer que suas bem preparadas aulas não eram as mais populares entre os alunos,  que mal podiam esperar  pelo toque da campainha indicando o final da sessão e o ínicio dos prazeres da sexta-feira à noite (que se resumiam  para quase todos a cerveja barata e serenata pelas ladeiras de Olinda). Um dia, porém, a professora entrou na sala portando um projetor de slides (nada de “data show” naqueles tempos medievais), e, para contextualizar o período barroco da literatura, que estudávamos, decidiu inovar, deixando os áridos textos e enfocando a pintura da época. Assim,  nos apresentou Velázquez, explicando em detalhes o que deveríamos observar nas pinturas. Os alunos se quedaram em choque. A aula se prolongou por muito além dos 50 min de praxe. Todos ignoraram o toque da campainha, e permacerem imóveis, extáticos e atentos, enquanto Irene discorria elegantemente sobre Baco cercado por bêbados de dentes estragados pelo vinho. É a única aula dela de que consigo me lembrar.

IMG_0401

The Triumph of Bacchus (Los Borrachos, The Topers), 1628-1629. Velázques. Diego. (Clique na imagem para vê-la ampliada)

Bom carnaval!

NOTE: If you are into art, you may consider checking out our eBook series TEACHING ENGLISH WITH ART:

Click on the links below to go to AMAZON.COM and buy your ebooks:

1. Teaching English with Art: Matisse  http://wp.me/p4gEKJ-1kP

 (30 speaking and writing activities based on famous works by Henri Matisse)

2. Teaching English with Art: Picasso  http://wp.me/p4gEKJ-1lA

(30 speaking and writing activities based on famous works by Pablo Picasso)

3. Teaching English with Art: Caravaggio  http://wp.me/p4gEKJ-1mL

(30 speaking and writing activities based on famous works by Caravaggio)

 

 

Jorge Sette

TEACHING ENGLISH WITH MATISSE


TEACHING ENGLISH WITH MATISSE

SPEAKING ACTIVITIES FOR THE LANGUAGE CLASS – FULLY CORRELATED TO THE COMMON EUROPEAN FRAMEWORK OF REFERENCE  (Click on the image to access the PDF presentation on SlideShare).

 

Como (não) escrever como Oscar Wilde!


Sabe-se que os jovens de hoje escrevem muito mais do que os de qualquer geração anterior. Isso se dá sobretudo pelo fato da maior parte da socialização ocorrer online, através de textos. Mas, para muitos, ainda é bastante difícil estruturar um texto mais longo ou talvez um pouco mais formal do que simplesmente escrever “MIAU, MIAU” no quadro de comentários do selfie da amiga com seu gatinho no Facebook.

O processo da escrita

Gostaria portanto  de compartilhar com meus leitores algumas técnicas básicas de processo da escrita para ajudá-los nessa cada vez mais requerida destreza ou habilidade. O que se chama em inglês de “process writing” (que traduzi aqui como o processo da escrita) enfoca as fases ou passos do desenvolvimento da produção de um texto. Professores de línguas tendem a se concentrar na correção do produto final, em vez de estimular, enriquecer com feedback, gerenciar  e ajudar o aluno a lapidar cada fase desse processo. Devemos, escritores e professores, nos concentrar em cada passo individual da rota, o que necessariamente resultará num produto final mais aprimorado.

Os passos do processo da escrita, com os quais a maioria dos especialistas concorda (com pequenas variações quanto à nomenclatura e o número das fases) não devem ser vistos como uma camisa de força. Cada escritor desenvolve sua técnica de criação própria eventualmente, e,  em consequência, uma voz distinta. Mas se você está começando a desenvolver sua escrita, esses passos táticos que delinearemos a seguir serão muito úteis, tenho certeza. Quando você se tornar um Oscar Wilde, Machado de Assis, uma Virginia Woolf ou alguns dos excelentes escritores da revista The New Yorker, talvez faça adaptações ou salte alguns dos passos abaixo. Mas a estrutura profunda é sempre a mesma. Vamos a um resumo desse passos.

Screen Shot 2014-02-27 at 1.33.31 PM

Passos do processo da escrita. Clique na imagem para ampliar.

Fase 1 – Inspiração

Não espere pela musa, a escrita é uma atividade proativa. Vá à luta na busca por ideias. Pense em tópicos que lhe sejam apaixonantes, pesquise assuntos interessantes na Internet e lhes dê um toque pessoal. É importante mostrar sua própria perspectiva, personalizar o assunto que se está discutindo na rede, dar sua opinião. As ideias podem vir dos lugares mais inesperados: jornais, redes sociais, uma notícia de TV, uma foto, um filme, um acontecimento no trânsito. Olhe ao redor, tudo está acontecento.  Colete todas as ideias de forma organizada, para usá-las no futuro (toda essa coleta, e mesmo a geração das ideias, pode ser feita digitalmente: blocos de notas no iPhone, app de mind-mapping para iPad, busca no Google, inspiração nos blogs do Feedly, geradores de ideias automatizados baseados em palavras-chaves (Hubspot oferece um desses para blogueiros), etc. São todos ferramentas válidas na prospecção por tópicos e sua organização, mas só a imaginação humana será capaz de filtrar tudo isso e imprimir seu ângulo e visão únicos.

Fase 2 – Rascunho 

Alice_and_Cheshire_Cat_by_mashi

Alice e o Gato. Clique na imagem para ampliá-la.

Agora é chegada a hora de priorizar todas as grandes e fantásticas ideias que lhe chegaram e foram diligentemente arquivadas, e pô-las no papel, ou no laptop, ou no tablet. Escolha um tópico, investigue quantas e quais das ideias anotadas devem se usar no tratamento específico do assunto (não tente usar tudo, o assunto pode sempre ser retomado depois, com mais detalhes). Pense no espaço físico de que você dispõe para a publicação da sua obra de arte (É um livro? Um blog post? Um comentário no Facebook? Um relatório para seu chefe? Um email para sua namorada estrangeira?). A forma e objetivos variam muito. Divida os parágrafos, selecionando a ideia principal de cada um, decidindo qual é a maneira mais interessante de seccionar e apresentar o texto. Faça quantos rascunhos precisar. Quanto mais, melhor. Determine o que será o início, o meio e o fim. Gosto sempre de começar pelo fim. Sabendo-se onde se quer chegar é sempre mais fácil construir o começo e o meio depois: lembra-se da resposta do Gato para Alice, a do País das Maravilhas?

“Would you tell me, please, which way I ought to go from here?”
“That depends a good deal on where you want to get to,” said the Cat.
“I don’t much care where–” said Alice.
“Then it doesn’t matter which way you go,” said the Cat.

Fase 3 – Revisão

Agora você vai refinar o texto, perguntado-se o que deve manter, acrescentar, cortar, substituir. Se possível, compartilhe-o com alguém de sua confiança para obter retroalimentação e comentários. A opinião dos outros tende sempre a aprimorar nosso trabalho, apontando algo que talvez não tenhamos percebido. Mas também se sinta livre para ignorar algumas das sugestões e manter o que havia escrito antes, tudo dependerá da sua autoconfiança. Considere se realmente terá usado suas melhores ideias e palavras, se escolheu a maneira mais interessante, clara ou convincente de apresentar um ponto de vista. Essa é a hora de aplicar todas as técnicas de pensamento crítico que tenho certeza você já vem desenvolvendo nos últimos anos.

Fase 4 – Edição

Aqui você vai mais a fundo no processo iniciado anteriormente. É a hora de checar e corrigir erros gramaticais, de ortografia, pontuação, adequação do uso de letras maiúsculas; o momento de consultar dicionários, procurar no GOOGLE por outra palavra mais apropriada, ver se JORGE se escreve com J ou G (o pior é que muita gente me pergunta, e estão se referindo à primeira letra não à quarta!!!)

Screen Shot 2014-02-27 at 1.40.34 PM

Clique na imagem para ampliá-la.

Fase 5 – Publicação

Talvez seja ideal pensar um pouco nessa fase antes mesmo de começar a ter as ideias (a coisa da Alice e do Gato de novo). Pois é importante saber se o produto final será um livro, um poster, “infographics”, um artigo, um relatório ou uma apresentação de PowerPoint para seu chefe ou professor. Mas agora é chegado o momento de trabalharmos no visual, nos ajustes finais, antes de compartilharmos o trabalho com o público. Acrescente fotos, ilustrações, gráficos e vídeos, o que você achar que vai adicionar valor ao seu trabalho. Minha opinião é sempre que MENOS é MAIS, ou seja, tendo a publicar trabalhos mais claros  e simples, e não abarrotados de ornamentos. Depois disso, levante-se, tome um café, respire fundo, se encha de coragem, e aperte o botão PUBLICAR.

Pensamentos finais

Como conselhos finais, eu diria que escrever é prática, como quase tudo na vida. A cada blog post, a cada artigo, a cada relatório, a cada email, você melhorará. Tenha como mantra MELHORAR SEMPRE, escrevendo o mais possível. Não meça seu progresso comparando-se com Oscar Wilde, mas com você mesmo ontem. Também não seja tão perfeccionista ao ponto de ficar improdutivo. Oscar Wilde tem um frase interessante sobre o excesso de zelo e perfeccionismo na escrita, e como isso pode ser inútil:

‘I have spent most of the day putting in a comma and the rest of the day taking it out.’

oscarwilde2_447823

Oscar Wilde. Clique na imagem para ampliá-la.

Au revoir

Jorge Sette.

E o Rio, hein?


Este blog está começando a parecer um guia turístico, já escrevi sobre meus lugares preferidos em Londres e Sampa, e estou sendo cobrado por meus amigos cariocas para cantar as belezas locais. Como estou certo que linguagem e cultura são inseparáveis, vamos a mais um post sobre outra das cidades mais fantásticas do planeta. Lembram-se do que falei num post anterior? É só seguir a rota das Olimpíadas, e o caro leitor chegará a alguns dos aglomerados urbanos mais especiais do mundo.

Recife versus Sampa versus Rio

Cresci em Recife, moro em Sampa há mais de vinte anos, e vou ao Rio sempre que posso, umas quatro vezes por ano. Recife para mim são as recordações da infância, a família, tapioca,  um verde luminoso e onipresente, e a temperatura da água do mar mais gostosa do mundo. Sampa é o trabalho, a vida adulta, a maturidade com as delícias e dores que a acompanham, além da conveniência de morar no lugar que oferece a melhor infraestrutura do país. Já o Rio…

…Bem, o Rio, e a zona sul em especial, sem querer parecer um clichê de novela da Globo, é certamente o lugar para onde irei depois de morrer, se o paraíso existe. Ipanema é meu conceito de Céu. Uma fantasia de felicidade eterna, que um fim de semana prolongado ou 15 dias de férias podem proporcionar. Claro que é melhor justamente porque dura pouco, e não dá muita chance de se defrontar com os problemas por que passa o carioca típico no seu dia a dia. Nenhuma cidade brasileira oferece a segurança e conforto que são tidos como certos e garantidos nos EUA ou na Europa.  O Rio não é exceção.

Já chegando ao aeroporto no Rio, uma sensação de bem-estar e excitação tomam conta da minha alma. A imaginação voa como os periquitos, tucanos e papagaios do desenho animado RIO, que é a idealização perfeita do espírito carioca. O sotaque aportuguesado, cheio de chiados e Rs aspirados, a ditongação diferenciada das palavras (vela= viela, doze=douze), a informalidade absoluta dos motoristas de táxi, que chegam a cutucá-lo para expressar uma idéia ou fazer-lhe uma pergunta…tudo me encanta. E o cronômetro inexorável começa sua dolorosa contagem regressiva de quanto tempo  ainda falta para o embarque de volta para Sampa. Há tanto que fazer e falar sobre o Rio, que só me atreverei a contar alguns dos programas  que faço quando tenho a sorte de me encontrar na capital carioca.

Ipanema e o Arpoador

Em geral me hospedo num hotelzinho em Ipanema. Nada em Ipanema é barato, mas já que é o bairro que mais frequento e onde faço a maioria dos meus programas, vale a pena o sacrifício, para poder passar o dia todo perambulando pelas redondezas, sem preocupação de pegar um transporte para ir a um hotel noutro bairro.

Sentar-se de frente para o mar ou para o Morro Dois Irmãos, nas cadeiras de praia alugadas das inúmeras barraquinhas que vendem bebidas,  saboreando um açaí geladinho, é uma sensação que não tem preço. Se o dia não estiver nublado (ao menor sinal de nuvens ou possibilidade de chuva todo e qualquer carioca evitará a praia, mas não os paulistanos ou outros turistas, que têm seus dias contados!) já se começa a comentar na praia que “hoje vai dar por do sol”. Isso significa que você terá a oportunidade de, no final do dia, instalar-se na Pedra do Arpoador, na divisão entre Copacabana e Ipanema,  e admirar uma bola de fogo avermelhada mergulhando no mar sob os aplausos de idólatras deslumbrados. Estatisticamente, a região do Arpoador é a área do Brasil onde as pessoas são em média mais felizes. Me pergunto por quê!

IMG_1245

Por do sol, visto da Pedra do Arpoador. CLIQUE EM QUALQUER FOTO PARA VÊ-LA AMPLIADA.

Livraria da Travessa

Depois do por do sol, ainda com a sensação de que presenciei algo único – embora possa se repetir quase todos os dias – em geral me dirijo à Livraria da Travessa, com seu charme, ótimo atendimento,  e a oportunidade de cruzar casualmente com celebridades da televisão brasileira. Não se pede autógrafo no Rio, já que todos estão mais do que acostumados a encontrar artistas e jogadores de futebol em todos os lugares, especialmente na praia. Mas um paulistano ainda pára meio boquiaberto quando percebe que Rodrigo Santoro ou Andrea Beltrão estão tranquilamente vasculhando a prateleira de livros a seu lado na Travessa.

IMG_0305

Livraria da Travessa, Rio.

Urca

Quando saio de Ipanema, em geral pela manhã, que é a hora menos quente do dia, e antes de ir à praia, vou em geral à Urca. Caminhar pela pouco conhecida Pista Claudio Coutinho, que circunda o Pão de Açúcar,  é sempre uma ótima forma de se exercitar. O lugar é cercado de vegetação, que se abre aqui e ali, mostrando trechos magníficos de mar azul, ilhas cercanas e navios que passam ao longe. Micos cruzam seu caminho ou o observam curiosos dos galhos mais baixos das árvores. Tem em geral uma temperatura mais baixa que a da cidade naquele momento. Aproveito depois para fazer um lanche num dos botecos que circundam a praia da Urca e comer empadinhas, casquinhos de caranguejo, ou outros salgadinhos típicos.

IMG_0225

Jorge na Pista Claudio Coutinho, na Urca.

Jardim Botânico

O Jardim Botânico, com cerca de 6500 espécies de plantas, em estufas ou ao ar livre, é outro dos meus passeios favoritos. Sempre que estou no Rio, procuro reservar um tempo para passar por baixo daquelas palmeiras-imperiais centenárias, curtir o orquidário, e tomar um café olhando para o Cristo Redentor, que disputa com o Sol o título de divindade maior do Rio.

IMG_0651

Jorge no Jardim Botânico, Rio.

O que ainda não fiz no Rio: voar de asa delta. Me prometi isso como presente no meu último aniversário, mas como se diz no popular, AMARELEI – tive medo e decidi adiar a empreitada. Fica aqui a promessa de que escreverei neste blog sobre essa experiência assim que for realizada.

Au revoir

Jorge Sette.

Se você vem a São Paulo para a Copa do Mundo…


Com cerca de 19 milhões de habitantes em sua área metropolitana, Sampa, como carinhosamente chamamos esta cidade, é o centro financeiro da América Latina e a maior cidade do hemisfério sul. Acabou de completar 460 aninhos no dia 25 de janeiro passado, e está se preparando para um futuro radiante. Dê uma olhada no meu painel do Pinterest em homenagem ao aniversário de São Paulo (http://www.pinterest.com/jorgesette/são-paulo-460/ ).

Uma das 12 cidades brasileiras escolhidas para sediar os jogos da Copa do Mundo, a partir do próximo 13 de junho, Sampa está esperando um grande número de turistas, tanto de outras cidades brasileiras como do resto do mundo. Estaremos no nosso inverno, com temperaturas mínimas de 10 graus Celsius e tempo seco. É verdade, não temos as belezas naturais do Rio, e nunca fomos a capital do país, mas se você quer uma experiência de brasilidade total, em toda sua miscigenação e cosmopolitismo;  se busca intensa atividade cultural, vida noturna  para todos os gostos e idades,  ou disfrutar da melhor gastronomia do Brasil, este é o lugar para visitar. Welcome!

Em qualquer guia turístico impresso ou online você encontrará centenas de opções de passeios, programas noturnos, museus e lugares para fazer compras. No entanto, neste post você está tendo uma oportunidade única de ler a respeito de 4 dos programas locais que típicos paulistanos como eu fazem no dia a dia, e nos fins de semana. Não se trata de armadilhas para turistas!

Vila Madalena

Vamos começar pelo meu bairro, a Vila Madalena, um dos mais boêmios da cidade, conhecido como o SOHO brasileiro, pela quantidade de galerias de arte, boutiques, bistrôs, cafés, sorveterias, barzinhos e padarias (uma instituição tipicamente paulista) dispersas nas suas colinas arborizadas. Sim, há muito verde em Sampa. É um mito dizer que só temos cinzento e concreto. Intriga de carioca!

Diz a lenda que a quantidade de botecos e bares na Rua Mourato Coelho, uma das principais do bairro,  é tamanha, que, se um desavisado bebedor decidir tomar um único copo de cerveja em cada um deles, entrará em coma alcoólico antes de chegar ao final da rua.  Já, para reforçar a energia do turista que se aventurar a subir e descer nossas ladeiras, recomendo o açaí na tigela da padaria VILA GRANO, que pode ser saboreado a qualquer hora do dia e da noite (aberta 24 horas, 7 dias na semana!)

foto

Vila Madalena. Clique para ver a foto ampliada.

Avenida Paulista e imediações

Passemos agora à Avenida Paulista, que, com seus 2.8 km de comprimento,  é o centro financeiro da capital. A Paulista é também onde tudo acontece: incluindo as mais diversas manifestações  e protestos políticos, celebrações de final de campeonato de futebol, e a maior parada gay do mundo. Com um calçadão generoso para pedestres, e uma faixa de ciclovia aos domingos, a avenida Paulista é o que temos de mais semelhante a Ipanema (sem o mar e o deslumbrante por do sol visto do Arpoador. Ok, dou o braço a torcer aos cariocas, desta vez).  A Paulista liga o bairro do Paraíso à avenida Consolação (e a piada é que sempre há um consolo se não se chega ao paraíso).  Bem há quem diga que ela só termina na Rua Minas Gerais, depois da Angélica!

O mundo, em toda a sua diversidade, cores e gêneros perambula despreocupadamente pela avenida nos fins de semana, em contraste com os paletós  que caminham apressadamente em direção aos inúmeros escritórios, bancos, hospitais e consulados da região de segunda-feira a sexta.  Uma média de 1.5 milhões de pessoas circulam na Paulista por dia. É também na região da Paulista que temos praticamente os únicos cinemas de rua da cidade (em oposicão aos de shopping centers), com seu charme e poesia. A boa notícia é que um dos mais tradicionais, fechado há cerca de 3 anos, vai reabrir agora: o CINE BELAS ARTES, na esquina da Paulista com a Av. Consolação.

IMG_2176

Avenida Paulista

A Livraria Cultura

Há muitas filiais desta livraria na cidade, e até em outras partes do Brasil também. Mas, para mim, a que se situa no interior do Conjunto Nacional (com duas lojas, e ainda abrigando um disputado coffee shop, um cinema e um teatro) é o centro intelectual de Sampa. O lugar tem uma vibração e atmosfera únicas, bem especiais, com gente entrando e saindo das suas amplas instalações todos os dias da semana. Temo pelo seu futuro, baseando-me no fechamento de grandes livrarias no mundo todo (o fechamento que mais me traumatizou até agora foi o da Borders, nos EUA, que eu adorava).  Mas acho que  o pessoal da Livraria  Cultura está no caminho certo, já começando a transformar o lugar num ponto de encontro cultural, e num imenso showroom para futuras vendas a partir do seu próprio leitor eletrônico, o KOBO.

A Pinacoteca do Estado, Estação da Luz e Museu da Língua Portuguesa

Situada no agradável Parque da Luz, a Pinacoteca é o mais antigo museu de Sampa e um dos mais famosos museus brasileiros, com um acervo da mais de 8000 obras, a maioria de artistas brasileiros dos séculos XIX e XX. O  prédio do museu em si já vale uma visita, pela magnificência de sua arquitetura. E se houver tempo, aproveite a oportunidade para ver obras de Di Cavalcanti, Almeida Junior, Anita Mafaltti, Tarsila do Amaral, etc.  Da porta do museu, pode-se também admirar o deslumbrante prédio da Estação ferroviária da Luz (que também acede a uma linha de metrô, para sua conveniência)  e, se cruzar a avenida, terá acesso ao Museu da Língua Portuguesa, que  promove de forma muito criativa  e interessante a língua nacional.

IMG_1699

Estação da Luz

E por falar na língua portuguesa, se você não é brasileiro, não esqueça de aprender algumas expressões e palavras essenciais como preparação para sua visita ao Brasil durante o mundial de futebol. O inglês, ou qualquer outra língua estrangeira, é muito pouco falado no Brasil. Estima-se que menos de 3% da população seja fluente no inglês.  Acabamos de ler nos jornais, por exemplo, que alunos universitários enviados ao exterior para um programa de iniciação científica subsidiado pelo governo, chamado CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS, correm o risco de voltar ao Brasil,  pois seu nível linguístico em inglês (mesmo depois de seis meses no exterior) não os qualifica para aceite pelas universidades que participam do programa.  Por isso, mãos à obra, você ainda tem alguns meses para praticar seu português.

Por hoje é só.

Au revoir

Jorge Sette.

Philomena – uma pequena gema


“We shall not cease from exploration
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.”

T.S. Elliot

(Este artigo contém SPOILERS sobre o filme Philomena. Adie a leitura, se pretende se surpreender com o filme)

É assim, citando essa passagem de T.S. Elliot, que Martin (Steve Coogan), o jornalista que acompanha a ingênua Philomena (Judi Dench) na sua busca pelo filho ilegítimo, que lhe foi tomado por freiras católicas e vendido a uma família americana há 50 anos, responde ao comentário da companheira de que haviam voltado ao ponto de partida (“We’ve come full circle”) no final da longa jornada pela qual passaram.

Judi Dence and Steve Coogan in Philomena

Judi Dench and Steve Coogan, em PHILOMENA

A busca a leva da Grã-Bretanha a Washington, em companhia do jornalista, que,  contratado por um tabloide,  escreverá um cínico artigo de  “interesse humano”, explorando o lado mais popularesco, açurado e sensacionalista da história,  comprometendo-se, em recompensa,  a bancar todos os custos da procura do filho “roubado”. Mas, com o desenvolvimento da relação entre ambos, ele começa a perceber que a história de Philomena é bem mais complexa e dolorosa, e talvez não mereça este tipo de exposição pública.

Na juventude, passada na Irlanda no início da década de 50, Philomena, depois de um breve flerte, cede aos impulsos e “desejos da carne”,  e engravida. Seu pai a envia à Abadia de Sean Ross em Roscrea para o parto. As freiras, na mais estrita rigidez moral e religiosa, como convém à época, consideram aquilo um pecado grave, pelo qual Philomena deve penar, tanto na dor do parto difícil, como na obrigação de trabalhar duro na lavanderia do convento pelos próximos 4 anos, como uma escrava,  até quitar sua dívida de 200 libras  pelas despesas assumidas pelas freiras.  Seu filho, Antony,  é finalmente “vendido” para uma família americana.

A própria Philomena, como boa católica, internaliza de tal forma os preceitos religiosos, que se sente inteiramente responsável e culpada pelo seu próprio destino, e está de acordo com as punições infligidas pelas freiras. Por 50 anos, no entanto, nunca esqueceu esse filho, e agora, com ajuda da filha que teve posteriormente, e de um jornalista desempregado, decide que precisa reencontrá-lo, simplesmente para saber o que foi feito dele. Já havia tentado antes, mas sempre se defrontou com um paredão de resistência das freiras, uma vez que, por espontânea vontade, assinara um documento abdicando da criança e prometendo jamais procurá-la depois da adoção.

Usando os contatos que tem nos EUA, onde já trabalhara anteriormente, Martin finalmente descobre que Antony, que passou a chamar-se Michael na nova família, morrera já há alguns anos. Era um bem-sucedido advogado trabalhando na administração Reagan e… gay, escondendo esse fato da sua vida pública, como era comum na época. Morrera de AIDS.

“Philomena”, com personagens complexos,  personificados por fulgurantes atuações de Dench e Coogan, é uma história  aparentemente simples e direta, emocionando pela honestidade e carisma dos personagens principais. Nada de sentimentalismos ou grandes arroubos emocionais: tudo muito contido, sutil, com momentos de humor, mas profundamente pungente. Além disso, a beleza física de JUDI DENCH enche os olhos do espectador. Beleza que resiste ao tempo, não APESAR das profundas rugas que se cruzam nas mais diversas direções no seu rosto de 80 anos, frequentemente em close-up na tela, mas justamente POR CAUSA delas!

judi-dench-philomena-movie-1

Judi Dench, em PHILOMENA.

Mas o filme é mais profundo. Um dos temas é o claro paralelo entre mãe e filho, que são “pecadores” irredimíveis aos olhos da igreja católica, enfrentando os preconceitos mais violentos e típicos das diferentes épocas  e sociedades em que viveram, e recebendo por suas transgressões (o amor físico fora dos padrões estabelecidos) as punições mais cabíveis. Também ambos se sentiam culpados e se envergonhavam da sua conduta. Estigmatizados pela sociedade e por si próprios.

Outro tema interessante é o confronto entre a espiritualidade de Philomena – cujo nome em grego quer dizer AMIGA DA FORÇA, e também o nome de uma obscura santa mártir –  e o materialismo ateu e cínico de Martin. Fica evidente no filme que, apesar de todo o sofrimento e sentimento de culpa causados pela rigidez da religiosidade simplória de Philomena,  ela parece ser uma pessoa mais em paz consigo do que Martin, que não parece ser bem  sucedido na vida pessoal ou profissional. Os  fantasmas de Martin são bem seculares e mundanos, mas não deixam de ser fantasmas, assim como o filho de Philomena.

Me ocorreu também que o filme pode ser visto como uma metáfora da aceitação de uma mãe pela orientação sexual do filho. Ou seja, essa separação de 50 anos seria o tempo que Philomena levou para digerir o fato e aceitá-la como mais um aspecto da experiência  e diversidade humana (apesar de no contexto do filme, no nível mais superficial da história, a mãe não expressar a menor surpresa ou ressentimento quando lhe falam sobre as preferências de Antony/Michael, dizendo que sempre soube que o filho era um “gay homosexual”, na sua impagável simplicidade). Mas talvez essa interpretação possa estar um pouco longe das intenções do diretor Stephen Frears. Não convém explorá-la mais aqui.

Agora é nossa vez de voltar ao início deste artigo, e concluir o significado do poema de Elliot no contexto do filme.

Como no poema, sim, pelo menos fisicamente, Philomena e Martin voltam ao ponto de partida, à Abadia de Sean Ross. Mas, assim como estamos noutra estação do ano, com os campos cobertos de neve,  algo mudou: os protagonistas têm agora uma perspectiva totalmente diferente, a viagem e as descobertas os transformaram, embora suas convicções mais profundas se mantenham as mesmas.  Aprenderam a aceitar um no outro as diferenças. Philomena concorda que Martin publique a história (o que inevitavelmente trará críticas à igreja que sempre protegeu) e ele lhe presenteia uma estatueta de Cristo para  adornar a lápide do filho. Parece haver uma negociação em processo, um visível início de aceitação e respeito pelo ponto de vista alheio.

Au Revoir

Jorge Sette.

Alongando os músculos da língua


Vivemos num mundo multicultural, multilíngue, e de economia globalizada. A comunicação se dá basicamente através da internet, sendo o inglês a língua com maior número de usuários online, seguida pelo chinês, espanhol, japonês e português (acessem esse link para maiores detalhes: http://www.internetworldstats.com/ ).

No WordPress, a plataforma na qual você está lendo esse blog, 66,7% do conteúdo “postado” é em inglês. Não falar pelo menos duas das línguas mais importantes na internet é um atestado de misantropia, ou mais precisamente, um suicídio social. Abaixo, cobrirei os pontos mais importantes que influenciam a boa aprendizagem de uma língua estrangeira.

Motivação

Há duas palavras-chaves para se adquirir uma língua estrangeira, motivação e imersão. Vamos discuti-las em parágrafos separarados. Os especialistas consideram dois tipos básicos de motivação: a extrínsica e a intrínseca. A motivação extrínsica é aquela que depende de fatores externos e práticos. Nos dedicamos a aprender uma língua, por exemplo, para conseguir um emprego, ou uma promoção, ou um melhor salário. Ou porque a bolsa da pós-graduação exige que se fale um idioma estrangeiro. A motivação intrínseca, por outro lado, diz respeito a razões e motivos mais emotivos ou românticos. Decidimos aprender a língua, por exemplo, porque nos identificamos com a cultura de um certo povo, e para participar mais completamente dessa experiência necessitamos entender e nos fazer entender pelos falantes nativos. Por cultura, me refiro a todos os hábitos e costumes de um povo, sua arte, literatura, cinema, teatro, música, etc. É sabido que a motivação intrínseca é mais eficaz que a extrínseca, por envolver fatores emocionais e afetivos, tão fundamentais em qualquer processo de aprendizagem.

Image-1

O essencial componente lúdico da aprendizagem: “Children teaching a cat to dance”,  1666, Jan Steen.

Imersão

Quanto mais nos expomos ao insumo (input) linguístico, mais rapida e eficientemente se aprende uma língua estrangeira. Portanto a sugestão é aumentar ao máximo o contato que se tem com a língua: estar sempre procurando acessar falantes nativos (através das redes sociais, por exemplo); ler na língua-alvo (recomendo que a leitura passe por uma processo de avanço gradual, usando-se  a princípio os chamados “readers”, livrinhos simplificados feitos especialmente para o ensino da língua, disponíveis em varias editoras, antes de passar à literatura original); filmes, videos, jogos eletrônicos, clips do YouTube, e o que mais lhe dê acesso ao idioma. Essa exposição deve ser diária e ininterrupta. Duas horas no mínimo.  Acho que a aprendizagem de um idioma através de letras de música um pouco superestimado (mas isso depende muito do estilo e gosto próprios). Minha experiência é que tanto as letras  de música popular como a poesia mais tradicional são mais adequadas a estágios mais avançados do desenvolvimento linguístico, uma vez que na primeira há muitas gírias e expressões locais, e na outra, palavras e estruturas gramaticais incomuns, pois faz parte da natureza dessa arte experimentar com a língua. Isso pode tornar o texto indecifrável para um falante não nativo. Mas o desafio também pode ser motivador.

Dois pontos importantes para finalizarmos essa seção: escolha conteúdos que lhe deem prazer e que não estejam muito acima do seu nível atual na língua (há maneiras, por exemplo, de se controlar isso, como o uso de legendas em inglês nos filmes em DVD, ou vídeos mais curtos, ou que tratem de temas que você já conhece na primeira língua). Há estudos  científicos que corroboram esses conselhos: o primeiro é a teoria do “comprehensible input”, do linguista Krashen, que alerta que a língua que se ouve ou lê deve ser inteligível para o aluno, oferecendo um contexto que facilite a identificação das palavras ou estruturas,  ainda que desconhecidas (portanto não tente ler Shakespeare na aula número 1). O outro é uma teoria que se chama CLIL (content and language integrated learning), que afirma que a melhor maneira de aprender uma língua é achá-la dentro de um contexto natural  e de interesse para o aluno (artigo de revista, video de YouTube, livro etc), de modo que a a mensagem seja mais importante que a FORMA em que a língua é apresentada. A língua nesse caso serve de veículo, de meio para se atingir um fim específico, que é o entretenimento ou a informação.

Devemos frequentar a escola tradicional?

Aqui acho bastante cabível fazer uma analogia entre a aprendizagem de língua e seguir um programa de preparação física (fitness, como se costuma dizer hoje, mesmo em português). Há diversas opções que se enquadram ou não ao estido de vida de cada um: você pode frequentar uma academia, em um programa intensivo ou mais ameno. Contratar um personal trainer, se necessita de uma atenção mais especial, e  caso tenha somente alguns horários disponíveis. Ou, se tem muita autodisciplina, simplesmente comprar o livro Body for Life de Bill Phillips (editora Harper Collins, 1999), e segui-lo sozinho. Pode-se também combinar diferentes opções. Eu já fiz todas essas, em diferentes épocas de minha vida. Agora estou tentando uma experiência nova: passar o dia no sofá, lendo, estudando e escrevendo esse blog para averiguar se isso me dará os músculos de que necessito para arrasar de sunga em Ipanema. Não, nunca tentei os vídeos aeróbicos de Jane Fonda: ainda estava no berço.

Body-for-Life

Body For Life, Bill Phillips.

Bem, com a aprendizagem de língua se dá o mesmo: escolas tradicionais com vários alunos na sala e um professor dinâmico pode ser muito divertido e relaxante depois de uma dia puxado de trabalho. Professor particular é caro, mas dedicará toda a atenção a suas necessidades individuais. Ele também inevitavelmente se tornará seu psicoterapeuta, portanto escolha bem. Cursos online estão em alta, oferecendo todas as vantagens da automatização do ensino, fazendo melhor o que máquinas fazem melhor, e ainda adicionando acesso a sessões tutoriais agendadas com professores nativos e  acesso a comunidades virtuais, para o intercâmbio de ideias com outros alunos estrangeiros. Essas são só algumas das opções, e podem ser combinadas de forma bem criativa e eficaz.

Para o resto da vida

274813_Papel-de-Parede-Os-Simpsons-The-Rolling-Stones_1400x1050

Aprender uma língua estrangeira é como assistir a OS SIMPSONS: sempre prazeroso e sem data marcada para acabar.

Outro ponto que devemos ressaltar é que aprendizagem de uma língua estrangeira é um processo contínuo, sem fim definido, assim como no caso da primeira língua. Há níveis de progresso claramente balizados ao longo do caminho, que lhe permitirão decidir se já chegou onde quer e onde precisa (a medição se dá através dos chamados exames internacionais, que ratificam seu nível de inglês e adequação para o bom desempenho de diversas funções e atividades). Procure adicionar DIVERSÃO ao longo do processo, para motivá-lo,  já que o caminho poderá ser longo.  É essencial que a jornada proporcione prazer. Pense em aprendizagem de língua mais como assistir a OS SIMPSONS que a BREAKING BAD. Ambos são maravilhosos, mas a trajetória de WALTER WHITE inevitavelmete terá um fim (eu já sei qual é, você sabe? Ou ainda está esperando pelo NETFLIX?). Já em OS SIMPSONS não há perigo de Maggy largar a chupeta e casar-se, de vermos a formatura de Lisa, ou Bart cumprindo pena na cadeia por um delito cometido depois da maioridade.  It goes on forever…

Por hoje é só.

Au revoir

Jorge Sette.

Se “ELA” fosse uma professora…


A estreia do filme Ela (Her) se deu hoje em São Paulo.  Como havia lido os  comentários e ouvido sobre as premiações, minha expectativa era grande: era o primeiro da fila no cinema que escolhi. A história me interessava muitíssimo.

(Aviso: este artigo contém SPOILERS sobre o filme HER.)

Entrei no cinema 10 min antes do horário previsto para o começo do filme, e evidentemente, tive que checar meu iPad e iPhone umas duzentas vezes para preencher o vazio desse interminável intervalo. Ah, a ansiedade desses tempos modernos!  Fiz também a SIRI uma ou duas perguntas e ela pediu para acessar a minha conta do Twitter para a busca.  Me chama HORGUÊ  a gracinha. Gringa. Mas deu a resposta. Agora a situação piorara, o filme não começou ao final desse tempo. Quinze minutos depois da hora prevista, ainda não havia nem sinal de vida na cabine de projeção. Mais uns cinco minutos, e uma funcionária entrou espavorida e disse que houvera um imprevisto técnico.  O início do filme atrasaria mais um pouco. Ótimo prenúncio para um filme cujo história envolve um homem  que se apaixona por um sistema operacional: uma falha na tecnologia! Pressenti que o relacionamento retratado na tela tinha grande chance de ser um vôo turbulento!

O filme não decepciona, muito pelo contrário. Se não é exatamente revolucionário nas ideias, nos faz pensar muito sobre o que é a essência do ser humano e seus relacionamentos. Resumo da história:  Theodore (Joaquin Phoenix), separado da esposa, está prestes a assinar os papeis do divórcio, mas hesita, assim como ela, pois afinal de contas, trata-se de desfazer-se de toda uma vida construída juntos, desde jovens. Ele se sente solitário, e,  depois de experimentar algumas alternativas para conectar-se com outros seres humanos – incluindo linhas de sexo por telefone (numa cena hilariante, por sinal) – compra e se apaixona por um sistema operacional que se autodenomina Samantha (representado pela sensualíssima voz de Scarlett Johansson). O “OS” (operational system) tem um inteligência artificial  que se desenvolve e aprende, à medida que interage com humanos e outras máquinas.

Se o motivo do divórcio eram os problemas emocionais por que todos os casais passam, quando cada parte inevitavelmente muda e evolui, distanciando-se do parceiro, como seria lidar com isso numa relação com um computador que aprende constantemente e se torna cada vez mais autoconsciente? Não vou entrar em detalhes para não estragar o prazer de quem vai assisitir ao filme,  mas a reposta é: NÃO MUITO DIFERENTE!

her-movie

HER, the movie. Theodore and Samantha.

Imaginei como seria “HER” num contexto da Educação,  com programas e sistemas operacionais substituindo professores humanos. Afinal de contas, blended learning já é uma realidade sem volta. Obviamente, as grandes vantagens de interagir com uma máquina são a retroalimentação imediata, a personalização do ensino, a adaptabilidade da rota da aprendizagem ao progresso do aluno, e a flexibilidade do acesso online, permitindo que o aluno aprenda onde e quando queira. Essas atividades são indiscutivelmente executadas melhor por um computador.

Além disso, assim como no filme, o relacionamento  entre aluno e professor pode também facilmente prescindir da fisicalidade do contato.

Samantha,  o OS, no entanto, evolui a tal ponto ao longo da história que não lhe interessam mais os problemas humanos, está num nível muito superior de busca e preocupações existenciais, o que compromete seu relacionamento. Theodore busca então consolo numa amiga, real,  humana. Dessa forma, o filme parece concluir que seres humanos sempre necessitarão do contato com um semelhante,  alguém tão falho, inseguro, carente e, principalmente, dotado de um mesmo nível de complexidade emocional (nem superior,  nem inferior). Essa necessidade vale tanto para uma relação pessoal, como acadêmica, ou corporativa.

Claro que, dada a velocidade das mudanças tecnológicas por que passamos, não me aventuraria a prever exatamente o papel que o professor desempenhará amanhã.  Mas, se tomamos como exemplo a lógica do filme, a maior vantagem do ser humano está justamente na sua IMPERFEIÇÃO. A nossa própria fragilidade, se usada para potencializar e informar a empatia (a habilidade de sentir como o outro), será provavelmente a ferramenta que professores humanos disporão para se fazerem indispensáveis a seus alunos.

http://youtu.be/WzV6mXIOVl4

Au revoir

Jorge Sette.

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights): uma obsessão!


O primeiro contato

A primeira vez com que me defrontei com Catherine e Heathcliff, personagens principais de O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (Wuthering Heights), eu tinha quinze anos, e eles falavam em português. A cópia que eu lia, uma bela edição traduzida, de capa dura  em vermelho da Editora Abril (veja foto abaixo), mencionava “charneca” (the moors)  e “urzes” (heather). Nunca ouvi essas palavras em português noutro contexto, e as acho impressionantes e memoráveis. Não posso dizer, portanto, que minha obsessão  pelo livro tenha sido causada pelo inglês apaixonado de Emile Brontë, a autora. Foi a história em si, o enredo, a estranheza dos personagens, com suas personalidades fortes e até mesmo violentas,  e especialmente o cenário desolado de Yorkshire, que me marcaram tão profundamente.

Emily morro-dos-ventos-uivantes-2

O Morro dos Ventos Uivantes

Chegando ao original

Só muitos anos depois fui ler o original em inglês (confesso que até hoje tenho dificuldades com o dialeto local do personagem Joseph, o caseiro, fariseu fanático e mal humorado, sempre pontificando contra o pobre Heathcliff), e também, pude ouvir o texto em duas versões diferentes de audiobook (há várias, com diferentes narradores, disponíveis no site audible.com, que, acredito, pertence agora a Amazon). Cheguei a colecionar diferentes cópias impressas. E toda vez que vou à Livraria Cultura tenho que me controlar para não comprar uma nova, com capa e formato diferente. Tenho duas no Kindle.

Não sou a única vítima do fascínio  quase inexplicável que Wuthering Heights exerce sobre alguns leitores, conheço muitos deles. Numa editora em que trabalhei, tinha laços muito estreitos com uma colega que morava na Inglaterra. Comentando sobre nossa amizade, uma da minhas chefes me congratulou, dizendo que era muito importante manter um bom relacionamento com clientes internos. Respondi com bom humor que não se preocupasse, pois eu e a colega tínhamos um vínculo inquebrantável: nossa paixão por Wuthering Heights.

A história

Para os que não conhecem o enredo, a história,  que se passa na segunda metade do século XVIII, contada em flashbacks,  é muito simples: um orfão de Liverpool, Heathcliff, de origem possivelmente cigana, é adotado por uma viúvo, que o recolhe durante uma viagem de negócios, e o traz para morar no casarão da fazenda que dá nome ao livro,  situada num área desolada e inóspita do norte da Inglaterra, cercada pela charneca (saboreio essa palavra com prazer, como se fosse uma fatia de cheesecake). O viúvo tem um filho e uma filha, Catherine (Cathy), que, a princípio, desprezam e maltratam o recém-chegado.

Catherine e Heathcliff, no entanto, são espíritos livres e selvagens, e, é claro, não demoram a se encontrar um no noutro. Passam o dia brincando e correndo pela charneca (olha essa palavra aí de novo!), até que o inevitável acontece: se apaixonam. Surpreendentemente, Catherine decide se casar com um vizinho mais endinheirado, pois, para ela, a posição social é tão ou mais importante que o amor. Heathcliff a entreouve, sem que ela perceba, quando Cathy confessa à governanta (a narradora principal da  novela) que seria humilhante casar-se com ele, apesar de ser a sua alma gêmea. “I am Heahcliff”, ela diz em certo momento, numa frase icônica,  mostrando que o sentimento dos dois vai muito além de uma mera paixão física.  Mas Heathcliff não chega a ouvir esta parte, pois já decidiu que não pode viver mais ali  e se vai.

Anos depois ele retorna, rico e poderoso. O resto da história é uma intriga de amor, ódio, ciúmes e vingança – não, não é novela das oito da Globo, sei que há paralelos, mas não se enganem. Tudo isso envolto numa atmosfera gótica, com a violência da geografia e das condições climáticas (frio, chuva, neve e vento) não apenas servindo como pano de fundo, mas refletindo e reproduzindo, na natureza, as paixões dos personagens principais.

Wuthering-Heights-1939-wuthering-heights-7893828-633-475

Versão cinematográfica clássica, de 1939.

Os filmes

Vi duas versões cinematográficas do livro: a clássica,  de 1939, com Lawrence Olivier no papel de Heathcliff e Merle Oberon no papel de Catherine, e uma mais recente, dirigida por Andrea Arnold, de 2011. A que prefiro é esta última,  que ousa escalar um ator negro para o papel de Heathcliff. Esta versão para mim é a que reflete mais fielmente os personagens do livro. É uma versão mais sombria,  cheia de silêncios e imagens impactantes do desolamento da região. Com atores em ótimas interpretações. Veja clip abaixo.

Por fim

Como conclusão, ressaltaria que a literatura, além do prazer (e obsessões)  que proporciona e da capacidade que tem de aumentar nossa empatia, colocando o leitor numa posição privilegiada para apreciar  e entender o ponto de vista e a perspectiva de terceiros, é também uma forma eficaz de aprendermos ou aprimoramos  uma língua estrangeira.

Au revoir

Jorge Sette.

4 Livros Que Todo Professor de Inglês Deveria Ler.


Há livros, filmes, pinturas, esculturas e experiências sociais que têm  um impacto profundo nas nossas vidas e carreiras profissionais.  Neste post gostaria de compartilhar com vocês os quatro livros que mais inspiraram minha carreira de professor de inglês e “teacher trainer”. Li todos eles quando dei início a treinamento de professores como consultor numa editora nos anos 90, e durante meu mestrado em Linguística Aplicada na PUC em São Paulo por volta da mesma época.

Na realidade, eu recomendaria esses livros a qualquer professor de inglês iniciante ou experiente, ou mesmo a um professor que  ensine outras línguas. E ainda ao público leigo em geral, caso se interesse pelo fascinante tópico da linguagem e seu ensino e aprendizagem.

Volto a esses livros de vez em quando, e sempre encontro algo novo, um detalhe, ou alguma observação que depois de anos de prática fazem ainda mais sentido.  São imprescindíveis.

Vamos começar com o mais genérico de todos eles, um que considero a minha bíblia para o ensino de inglês, que cobre todos os aspectos do campo, passando pela análise  do processo de ensino, o conteúdo curricular, dando dicas sobre a escolha adequada de materiais didáticos, gerenciamento de classes, diferenças entre os tipos de alunos, etc, etc. Estou falando de A Course in Language Teaching, da Penny Ur, que frequentou inúmeros seminários em terras tupiniquins. Minha descoberta de Penny se deu através do famoso escritor de livros didáticos de inglês Robert O’Neil (um dos cérebros mais originais da área de ELT). Robert e eu estávamos sentados juntos na plenária da – para mim – ilustre desconhecida Penny Ur.  Começada a palestra, identifiquei que aquela pessoa que falava realmente tinha um conhecimento prático da realidade da sala de aula.  Era a “voz” de uma professora a que eu ouvia. Percebendo meu interesse, Robert comentou: “Não a conhece? Penny Ur. Se alguém algum dia quiser montar um treinamento completo para professores, tudo de que necessita é o livro dela!”  Reaaaaaally?  A lampadazinha das histórias em quadrinhos brilhou sobre a minha cabeça, e a partir dali comecei a montar toda a estrutura de um serviço de consultoria e treinamento que administrei por quatro anos, chamado Tutor. Alguns de vocês devem ter sido meus alunos…Infelizmente, meu livro, autografado pela autora, estava dentro de uma mala que me foi roubada numa viagem de volta da Jordânia. Foi o objeto cuja perda mais lamentei. Mas já comprei outro!

Unknown-4

A Course in Language Teaching (Penny Ur)

Outro livro que influenciou bastante a minha vida  profissional foi o Sound Foundations, do Adrian Underhill. O livro partia do princípio de que o aluno deve ter consciência do mecanismo de produção dos fonemas, entender o que está se passando com sua língua, com seu trato vocal, que partes estão sendo usadas na emissão dos sons. Não bastaria ao aluno uma exposição passiva ao insumo linguístico (input) para internalizar e reproduzir corretamente os sons, a inflexão e tonicidade de palavras e sentenças. Ele deveria ativamente  entender o processo para obter os resultados de inteligibilidade esperados de um falante de língua estrangeira. O livro se fazia acompanhar de um “chart”  fonético originalíssimo para a época, que hoje certamente está disponível online ou por outro tipo de mídia, como CD-ROMs. Este livro foi a base de uma programa que criei chamado Pronunciation for Brazilian Teachers, que foi bastante exitoso, repetido quase que semanalmente por quatro anos em várias cidades do Brasil.

9781405064101

Sound Foundations (Adrian Underhill)

O terceiro livro que gostaria de sugerir se chama The English Verb, de Michael Lewis, um autor bastante controverso que tive a sorte de poder  conhecer e entrevistar para a revista trimestral do BRAZ-TESOL, que eu editava na época.  É um livro fantástico, mas não  recomendado para “os fracos de espírito”. Não pela sua complexidade, é muito bem escrito, e consequentemente, simples de entender. Mas exige que o professor tenha uma mente muito aberta a novidades, e esteja preparado para rever posições e fazer questionamentos muito profundos sobre o ensino de gramática, e, mais especificamente, sobre o significado dos tempos e formas verbais do inglês. Mudará sua cabeça para sempre, esteja avisada! Basicamente, o tema do livro é que há uma diferença enorme entre as regras gramaticais simplificadas que se usam em sala de aula, que muitas vezes só foram criadas para facilitar a vida do professor e do aluno, e a realidade do uso de determinadas formas verbais no inglês real, falado e escrito ordinariamente por nativos da língua. Preparada para cruzar esse abismo? Leia o livro.

images-1

The English Verb (Michael Lewis)

Finalmente, deixem-me falar um pouco sobre Metaphors We Live By, de Lakoff e Jonhson. Neste livro revolucionário, aprendemos como a metáfora estrutura o pensamento e a linguagem do falante de inglês. Usamos a palavra “metáfora”  aqui não na sua acepção literária, mas como uma forma de expressar um pensamento com a ajuda de outro na linguagem do dia a dia,  por meio de analogias bem sistemáticas.  O livro nos leva a entender  como as experiências físicas e sociais nos ajudam a expressar comparativamente idéias mais abstratas e conceitos menos tangíveis. Partimos do concreto para chegar ao etéreo. Lendo o livro, você passará a entender associações que se fazem naturalmente em inglês sem nunca tê-las considerado mais profundamente.

Veja, por exemplo, como em inglês muitas vezes comparamos IDEIAS (abstrato) com COMIDA (concreto): “What he said left a bad taste in my mouth”, “All this paper has in it are raw facts, half-baked ideas and warmed-over theories”, ou  “There are too many facts here for me to digest them all”.

Também em inglês usamos sistematicamente a comparação de  TEORIAS (abstrato) com PRÉDIOS (concreto): “The argument is shaky”, “The theory needs more support”, ou ainda, ‘We need to construct a strong argument for that”. Percebeu? Todos os exemplos  anteriores são do livro.

Unknown-2

Metaphors We Live By (Lakoff and Johnson)

Esses livros certamente enriquecerão sua biblioteca e mudarão muito sua visão sobre a linguagem e seu ensino. Aqui está a lista:

1. A Course in Language Teaching (Ur, Penny. Cambridge University Press, 1996)

2. Sound Foundations (Underhill, Adrian. Macmillan, 1994)

3. The English Verb (Lewis, Michael. LTP, 1986)

4. Metaphors We Live (Lakoff, G. and Johnson, M. The University of Chicago Press, 1980)

Agora é sua vez. Que livros você me recomendaria?

Au revoir

Jorge Sette.