Meus 5 lugares preferidos de Londres


Londres é realmente uma das cidades mais fascinantes do planeta. Tenho uma teoria, a de que se você seguir a trilha das cidades escolhidas para sediar as Olimpíadas de verão, você estará fazendo escolhas certas para as cidades que um dia deve visitar. Veja por exemplo onde será a próxima: Rio!

Tive o privilégio de, no verão de 2012, ir duas vezes a Londres: primeiro fui a trabalho, e me encantei com a vibração da cidade (já havia ido outras vezes, mas desta vez havia alguma coisa diferente no ar, e pode ser que tenha sido a atmosfera pré-Jogos Olímpicos.). Não sei, resolvi voltar nas minhas férias, que seriam algumas semanas depois. Uma decisão acertadíssima.

Não faltam guias e informações turísticas sobre esta cidade. Por que estaria eu então escrevendo este post? A idéia é personalizar a experiência, compartilhando com vocês, queridos leitores, meus lugares e prazeres prediletos dessa encantadora cidade.

O Metrô

OK, ele é velho e apertado, pode estar superlotado, e se tornar um forno no verão. Mas e o charm?  E o cosmopolitismo? E andar por aqueles corredores com gente de literalmente todos os lugares do planeta (tenho certeza de ter visto uns marcianos por ali também) e muitas vezes  ao som de baskers (músicos de rua, e…umhh …de metrô, suponho) tocando, se você tiver sorte como tive,  uma de suas canções preferidas. Lá, o metrô é chamado THE TUBE, e chega a virtualmente todos os lugares da cidade. O que é comum na Europa, por sinal. O sonho de consumo de todo paulistano ou carioca. Realmente, muitas vezes eu não ia a lugar algum especificamente, apenas entrava e saía das diversas estações, curtindo a experiência em si (please don’t call me weird!). Ah, compre seu passe semanal para economizar uma mini-fortuna.

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I love the London Tube

The National Gallery

Localizada em Trafalgar Square, este importante museu tem mais de 2300 pinturas, de artistas como Caravaggio,  Jan van Eick, Rubens and Turner: talvez alguns de vocês se lembrem da famosa cena de SKYFALL, onde OO7 conhece o jovem Q na frente de uma obra de Turner, e trocam farpas e  ironias sobre  as vantagens e desvantagens da experiência (velhice) versus juventude.  Se passa na National Gallery.

O que mais me deslumbra, porém, é o fato de que a galeria está ali sempre, para os moradores, à sua disposição, para visitação  quando queiram, e de graça! Para nós, turistas , há que aproveitar cada minuto. Posso passar horas andando ali, transportado para um mundo de sonhos. Vi pela primeira vez o famoso quadro Sansão e Dalila de Rubens (imagem abaixo) no ano passado. Por quase um mês enviei emails para amigos com a foto do quadro, orgulhosamente discursando para eles (obrigado pela paciência!)  sobre os diferentes focos  de luz escohidos pelo artista para apresentar a cena da traição: enquanto Sansão dorme, Dalila lhe corta os cabelos, fonte de sua força, para entregá-lo aos filisteus.  Além das três fontes de luz visíveis, o quadro era para ser pendurado em cima de uma lareira originalmente, o que adicionava mais sombras, calculadamente.  Fantástico. Isso tudo eu aprendera, claro,  durante a audio-tour.

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Sansão e Dalila, Rubens. National Gallery. Clique para aumentar.

St Paul’s Cathedral, the Millennium Bridge e Tate Modern

Não, não estou trapaceando, falando de três pontos turísticos ao mesmo tempo, havendo prometido só cinco. É que se chega de St Paul’s a Tate Modern através da Ponte do Millennium. Tudo isso às margens do Tâmisa, com direito a calçadão tipo Ipanema, que se estende ao longo do rio até a Tower Bridge: uma bela caminhada. O pátio à frente do Tate Modern – um museu de arte moderna instalado numa antiga central elétrica – é uma festa, com gente conversando, tirando fotos, músicos tocando, pessoas declamando… Há também um terraço no piso superior do museu que oferece uma vista impagável da catedral e do rio. Merece uma, não, várias fotos.

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St Paul’s Cathedral – vista do Tate Modern. Clique para aumentar.

Hyde Park

Minha frustração é nunca ter visto um dos concertos dos Rolling Stones ali: era criança no primeiro e não tive férias  para poder ir ao segundo. Mas como minha imaginação é boa (e havia visto o vídeo do primeiro concerto!!), não tive problemas em perambular por ali como se estivesse ouvindo Sympathy for the Devil. Me hospedei ali perto, em Bayswater, portanto a caminhada pelo parque era uma obrigação e um prazer quase diários. Parques de Londres são pérolas no verão. Vá a qualquer um,  a diversão é garantida.

Camden Town 

Os mercados, a vibração,  os barzinhos à beira do canal, o fato de ser onde morou Amy Winehouse, tudo isso contribui para a atmosfera mágica desse bairro. Recomendo sobretudo o mercado principal, o CAMDEN LOCK, folclórico em todos os aspectos, cheio de gente interessante, muitos góticos,  tudo para comprar, incluindo livros, velharias,  comida, e ótimas barganhas (tipo camiseta com dizeres I LOVE THE LONDON TUBE).

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Camden Town. Clique para a aumentar.

Bem por hoje é só.

Agora é sua vez: quais são seus lugares preferidos de Londres? Compartilhe conosco.

Ah, se alguém está se perguntando por que esse post está figurando num blog sobre linguagem, digamos que visitar Londres é uma das maiores motivações para se aprender inglês! Taí o vínculo.

Au revoir

Jorge Sette

Ensinando linguagem com Michelle Pfeiffer e Dylan


Acabo de ler no Twitter que, por esses dias, uma professora da Flórida nos EUA, com um histórico  profissional impecável, foi suspensa por três dias, por ter passado aos alunos, como dever de casa, a análise da letra da canção Six Foot Seven Foot  do cantor de rap Lil Wayne. Os pais, enfurecidos, reclamaram e a professora foi suspensa.

Os alunos eram da oitava séria americana, ou seja, têm entre 13 e 14 anos de idade. A ideia da professora era que os alunos identificassem linguagem figurada no texto. Aparentemente, a pobre professora já havia tentado ensinar-lhes conceitos de jogos de palavras, símile e metáfora, usando Shakespeare e Edgar Allan Poe, mas não funcionara!

Se vocês checarem a letra de Six Foot Seven Foot na internet, vão provavelmente concordar com os pais,  já que é bastante explícita em tópicos de sexualidade e violência. Não me surpreende que a tenham achado inadequada para alunos dessa faixa etária.

No entanto, gostaria de discutir mais a fundo a atitude da professora, baseado em exemplos pessoais como professor e como educador.

A professora pode ter ido além dos limites aceitáveis, mas é imprescindível que o ensino seja baseado na realidade, interesses e expectativas dos alunos,  pelo menos como ponto de partida, do contrário o trabalho do professor se frustrará. Faz parte da missão do professor assumir riscos.

Num filme que recomendo a todos, DANGEROUS MINDS (Mentes Perigosas, disponível em DVD),  Michelle Pfeiffer protagoniza uma professora designada para ensinar estudantes segregados em uma “sala para alunos especiais”. São de uma rebeldia  e indisciplina bem conhecidas dos que ensinam nas escolas de periferia das grandes cidades. Depois da esperada rejeição inicial por parte dos alunos, ela vai, passo a passo, conquistando-os. Para isso, usa com êxito táticas parecidas com as da professora da Flórida, mas com variações que fazem toda a diferença. A competição Dylan-Dylan que  propõe aos alunos é um exemplo:

Percebendo rapidamente que  seria impossível manter os alunos interessados na poesia de  Dylan Thomas, que fazia parte do programa curricular,  ela  lhes pede que pesquisem um poema de Dylan Thomas que seja parecido em conteúdo  ou tema com a  letra de uma canção de um outro Dylan, o Bob, muito mais acessível aos alunos,  e que já vinham lendo em aulas anteriores.  É a chamada competiçao Dylan-Dylan. O prêmio para os ganhadores será um jantar com a professora num restaurante mais fino, de modo a motivá-los a participarem da gincana.

Os alunos participam ativamente, consultando livros do poeta Dylan Thomas na biblioteca, diante dos olhos incrédulos da bibliotecária, e discutindo os textos em pequenos grupos.

É interessante notar que uma cena anterior à da  proposta da competição nos  remete diretamente à tática da professora da Flórida.  O personagem de Pfeiffer e alunos discutiam o significado da letra de “Mr. Tambourine Man”,  conhecida canção de Bob Dylan, e em determinado momento a professora aventa  a possibilidade de que o tal “Homem do Pandeiro” possa ser um código (metáfora) para um traficante de drogas. Os alunos embarcam totalmente nessa interpretação: estão agora no mundo que conhecem, dos bairros duros em que moram, das pessoas que têm como vizinhos,  e se sentem muito à vontade expandindo a interpretação da professora. Batalha ganha!

Essa tática diverge da usada pela professora da Flórida nos seguintes pontos: os alunos  do filme eram mais velhos, portanto os conceitos abordados não seriam  tão chocantes para eles;  além disso, o objetivo era, partindo de algo mais simples, chegar ao ponto didático programado pela escola: a poesia de Dylan Thomas. Não nos cabe discutir aqui o valor estético de um ou outro poeta, ou a relevância das decisões curriculares da escola, mas ressaltar que a professora no filme foi astuta, subvertendo as normas de forma muito mais sofisticada e menos agressiva que sua colega da Flórida.

Trabalhando numa editora multinacional, tive a oportunidade de dar um treinamento de “gerenciamento de classe” para professores na Jordânia.  O filme Mentes Perigosas tem pontos muito interessantes a esse respeito, mas é um filme de linguagem forte e discute conceitos nada tradicionais, sobretudo para professores de países com uma cultura bem diferente da nossa.  Portanto, temi que seria arriscado apresentá-lo durante meu treinamento. Mas resolvi assumir o risco, depois de discutir com nossos representantes comerciais locais. Qual não foi minha surpresa com a reação dos professores, que, após a exibição do filme, passaram a discutir excitadamente os exemplos mostrados,  procurando formas de adaptar alguns pontos metodológicos à realidade de suas classes. Isso comprova que bons professores são necessariamente pessoas mais abertas a ideias novas e inusuais em qualquer lugar do mundo.

Qual seria então a solução para o professor que deseja se arriscar?  Encontrar um meio termo. Não deixar de se aventurar, e sempre avançar em metodologias  e táticas que sejam novas e que possam surtir efeito mais eficaz na aprendizagem. Mas talvez discutir antecipadamente com colegas, coordenadores e mesmo os pais a possibilidade de usar métodos menos convencionais no ensino de língua e literatura para alunos adolescentes.

Como preconizava o renomado pedagogo Paulo Freire, “ninguém nasce feito, é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos.”

Au revoir

Jorge Sette

Meu segredo para aprender inglês…


Há muita informação disponível sobre as estratégias usadas por pessoas que aprenderam, ou mais precisamente, adquiriram, uma segunda língua,  e  que demonstram um desempenho quase de falantes nativos. Basicamente, a distinção que faço aqui entre “aprender” e “adquirir”  é a usada pelo linguista Stephen Krashen, ou, simplificadamente: “aprender” é saber sobre os fatos da língua e poder discuti-los (ou seja, ter informação sobre a gramática, vocabulário, adequação dos registros ao contexto, semântica, etc), ao passo que “adquirir” vai uma pouco mais além: quer dizer usar a língua, falada e escrita,  de forma natural nos diversos contextos em que se requer.

Tecnicalidades à parte, posso ser considerado um falante bem-sucedido de inglês como segunda língua, uma vez que já ensinei a língua, e até mesmo administrei treinamentos para professores de inglês, além de ter trabalhado como consultor  e gerente de marketing para editoras,  usando basicamente o inglês no meu dia a dia profissional.

Digo tudo isso não para me gabar, mas para explicar ao cético leitor que as estratégias pessoais que enumerarei abaixo merecem uma certa credibilidade, dados os resultados atingidos.

Hora de tirar a pipoca do microondas, sentar-se relaxadamente na sua poltrona preferida, e ouvir minha história:

Motivação

Tudo começou há muitos anos,  numa praia paradisíaca no litoral da Paraíba, chamada Acaú, onde eu, meu irmão e 4 primos passávamos as férias de verão (sem nem sequer o conforto de eletricidade ou água corrente) – adianto que essas condições precárias não são um prerequisito para se aprender uma língua estrangeira.

Acaú, PB

Acaú, PB. Clique para aumentar.

Nossa tia havia morado nos EUA e, por algum motivo nunca muito bem esclarecido, entendeu que aos 9 ou 10 anos de idade, dispúnhamos de tempo livre demasiado brincando como selvagens na praia, e deveríamos nos submeter a uma ou duas horas de inglês por dia, com o método do Yázigi, utilizando um toca-fitas de pilhas. Apaixonei-me pela língua – até, quem sabe, por associá-la à beleza primitiva do lugar, ao fato de estarmos de férias, e de que, logo mais à noite, a lua e estrelas brilhariam claríssimas, em consequência  da falta de eletricidade nas casas (acho que estou exagerando no romantismo e começando a digressionar). Em resumo, motivação intrínseca é um fator  primordial na aprendizagem de uma língua.

Autonomia

Ao retornar das férias, segui aprendendo sozinho, agora usando um outro curso chamado LINGUAPHONE, na garagem de casa, nas tardes depois de voltar do Colégio Marista, sonhando que um dia teria a oportunidade de falar a língua com as estrelas dos filmes de Hollywood (chegara o momento da pré-adolescência em que passamos pelo CRUSH pelas celebridades). Assim como hoje, adorava cinema e música americanas, o que fomentava mais ainda o desejo de falar e entender o inglês.

A partir do sexto ano no colégio, começamos a ter aulas formais de inglês no programa, e a proximidade e amizade com dois  excelentes professores que tive a sorte de ter facilitaram ainda mais meu interesse e bom desempenho na língua.

Literatura

Já na universidade, como aluno da Cultura Inglesa, descobri a bem sortida biblioteca da escola, e me joguei compulsivamente na leitura dos READERS (literatura simplificada  e cuidadosamente graduada para o ensino da língua). Fui passando naturalmente de nível a nível na leitura dos livrinhos, consumindo de tudo: clássicos, histórias de detetive, ficção científica e não ficção. Meu interesse e dedicação chamaram a atenção da diretora da escola, que acabou me convidando para um processo de seleção para professores na própria escola. Passei de aluno a professor! Hoje em dia a maioria dos livros que leio continua sendo em inglês, até mesmo pela facilidade de obtê-los no Kindle.

Graded readers

Graded readers. Clique para aumentar.

Exposição à linguagem oral

Esses eram anos pré-video cassete, e internet, de modo que não tínhamos muitas oportunidades de ouvir o inglês. Tudo de que dispúnhamos eram as passagens de compreensão auditiva durante as aulas. Não era suficiente. Eu fazia de tudo para aumentar essa exposição: puxava conversava com os poucos gringos que frequentavam Olinda nos anos oitenta, tentava sintonizar a BBC WORLD SERVICE  nas ondas curtas num antigo rádio em casa, via e revia sessões de cinema. Até que tive a chance de ir morar e estudar na Inglaterra!

Morar no país em que se fala a língua

Minha experiência na Inglaterra foi um sonho. Sair de Recife para o mundo mudou minha vida radicalmente. Abriu minha cabeça e me fez amadurecer da noite para o dia. Quanto ao inglês, nem se fala (ou melhor, só se fala!!!). Evitava o contato com os vários alunos brasileiros que estudavam na King’s School, a escola que eu frequentava em Bournemouth, no sul da Inglaterra.  Cada minuto deveria ser dedicado à exposição à língua inglesa. Fiz amizade com alunos de outras nacionalidades e professores. Ouvia a BBC RADIO 4 em todas as horas que tinha livre, e comecei a comprar audiobooks, em  forma de fita cassette naquela época (comprei lá meu primeiro walkman, que parecia uma mini geladeira, branquinho, com uma portinha para abrir e inserir a fita). Ainda tenho como lembrança. Como consequência da exposição direta à língua e dedicação ao estudo mais formal das regras, passei no CAMBRIDGE PROFICIENCY, e vim para São Paulo ensinar inglês e fazer meu mestrado (imagina em quê?) em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas na PUC.

Jorge Sette: Bournemouth - UK, 1989

Jorge Sette: Bournemouth – UK, 1989. Clique para aumentar.

Bournemouth 1988

Bournemouth 1988. Clique para aumentar.

Espero que essa historieta inspire alguns a aprender uma língua estrangeira.

Au revoir

Jorge Sette.

Professores de carne e osso versus programas online


No meu post do ontem neste blog, fiz um resumo das novas tendências e tecnologias no ensino/aprendizagem de línguas. Pelos comentários que recebi, notei que alguns dos meus amigos professores se sentiram incomodados e um pouco amedrontados diante da possibilidade de insegurança e instabilidade nos seus empregos num futuro próximo. Bem,  estabilidade no emprego é algo que já não existe mais, bem-vindos a 2014!

São muitos os fatores que influem na instabilidade profissional dos nossos dias e não é nosso objetivo discuti-los aqui. Por outro lado, não acho que ela se deva especialmente à mecanização e automatização de algumas funções proporcionadas por programas para ensino de línguas disponíveis online.

É indiscutível que o futuro da educação como um todo passa pela Internet: MOOCs  (Massive Open Online Courses) e outras tendências semelhantes vieram para ficar. No entanto, o papel do professor como educador é bem mais amplo do que um mero apresentador de pontos gramaticais, corretor de exercícios, e  elaborador de provas.

Acabo de assistir a um filme bem interessante e complexo sobre a influência que uma professora nos anos trinta na Escócia tinha  sobre suas seletas alunas numa escola religiosa de classe alta (The Prime of  Miss Jean Broady – traduzido horrivelmente como A Primavera de um Solteirona), com a inigualável Maggie Smith (ganhadora do Oscar por esse papel. O filme está disponível em DVD,  é do final da década de sessenta, mas envelheceu bem). Ao contrário do açurarado (mas também meritório) Dead Poets Society, o primeiro filme vai mais além, pois tem a ousadia de também discutir a influência nefasta que algumas idéias e atitudes do professor podem ter sobre seus alunos. (vejam a foto do filme abaixo):

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Maggie Smith – Primavera de uma Solterirona. Clique para ver aumentado.

O ponto em questão aqui é enfatizar que a relação professor/aluno tem uma importância e consequências, sobretudo em se tratando de crianças e adolescentes, que vão muito além da sala de aula. Dessa forma, acredito que ainda está muito distante o tempo em que o papel do professor possa ser totalmente substituído por um programa de computador. Incentivo e apoio moral, interação contextualizada, emoção e carinho são aspectos do processo didático que ainda não podem ser replicados automaticamente.

Pensem em programas online como um complemento eficientíssimo no arsenal de que alunos e professores podem dispor na aquisição de uma nova língua. Desde a exposição a outros modelos de falantes (a maioria nativos),  passando pela personalização da aprendizagem, e chegando à incontestável atração que os mais jovens sentem pelo mundo online (será que são só eles? Só me desgrudo do meu iPad quando estou nadando, e não vejo a hora de inventarem um à prova d’água!).

A automatização dos programas de ensino de línguas online tem como benefício a liberação do tempo do professor para, em sala, dedicar-se às tarefas que ainda não são feitas eficazmente pelo computador, como a diferença positiva que o contato humano  direto adiciona à experiência da aprendizagem.

Au revoir

Jorge Sette.

Aprender línguas deve ser como jogar CANDY CRUSH SAGA


A bola de cristal

É verdade, não tenho uma bola de cristal. Mas tudo que preciso fazer é olhar ao redor (ler o que se fala nos blogs especializados, falar com meus amigos professores e alunos, observar as crianças brincando,  e ter trabalhado até muito recentemente no meio editorial) para perceber padrões muito claros que se estão delineando e que, em muito pouco tempo, dominarão completamente o universo do ensino/aprendizagem de inglês, e de outras línguas estrangeiras.

Não é minha intenção exaurir o tópico no pequeno espaço desse “post”. A discussão poderá ser continuada e refinada num futuro próximo, mas farei abaixo um resumo do que acredito já está mudando e quais as consequências dessas novas tendências na nossa área de ensino de línguas estrangeiras.

E-learning

Acredito que não é supresa para ninguém que os materiais impressos estão com os dias contados. Tablets e smarphones parecem ter sido feitos sob medida para aprendizagem: são atraentes, práticos, podem ser usados em qualquer hora e lugar, permitem armazenar toda uma biblioteca multimídia e permitir sua portabilidade para onde se queira levá-la.

Conteúdos didáticos online primam pela possibilidade de oferecer ao aluno feedback imediato dos exercícios mais automáticos, personalização da aprendizagem, na medida em que os alunos podem dedicar o tempo que necessitam às atividades, e até mesmo escolherem os tópicos que lhes sejam mais interessantes e/ou mais problemáticos.

E-learning por muito tempo ainda conviverá com “blended learning” (uma combinação  já comum entre aprendizagem online e aulas mais tradicionais numa escola), ou seja, o aluno faz as tarefas mais automatizadas no tablet/smartphone/computador, fora da classe, e pode também dispor do contato físico com o professor durante o tempo passado na escola. Isso nos leva ao próximo ponto das mudanças por vir:

O papel do professor

Preparemo-nos para constantes reciclagens e treinamentos. Para o resto de nossas vidas docentes (que sejam longas, se Deus quiser!) O período de aprendizagem e reciclagem do professor não terá mais uma data para ser concluído. Com a evolução das tecnologias (imaginem, por exemplo,  a revolução que o GOOGLE GLASS não trará ao ensino quando for lançado para as massas já nos próximos meses!), será permanente a necessidade de adaptação e desenvolvimento de novas estratégias e táticas de ensino.

Além disso, o papel principal do professor será o de consultor e facilitador, gerenciando e ajudando o aluno a montar seu próprio caminho na aprendizagem individualizada. Essa tutoria se dará pessoalmente, mas também online (via skype ou qualquer outro meio de teleconferência).

Muitos especialistas falam ainda da “flipped classroom”, um conceito que, simplificadamente, quer dizer que o aluno aprende e pesquisa sozinho, fora da escola,  e usa os serviços do professor para solucionar dúvidas mais específicas, ou como fonte de motivação e orientação, ou para todas as outras interações mais afetivas, em que o elemento humano ainda é indispensável.

Metodologia

As tendências metodológicas vão todas na direção da flexibilização e personalização da aprendizagem, com o objetivo de, respeitando as diferenças de estilos de aprendizagem e aptidão, realmente preparar o aluno para as chamadas habilidades do século 21 (colaboração, criatividade, desenvolvimento do pensamento crítico, desenvoltura com o uso da tecnologia, etc).

Línguas terão de ser aprendidas/ensinadas com muitos elementos de CANDY CRUSH SAGA: de maneira compulsivamente envolvente, com  um forte componente de diversão, mecanicidade, competitividade e colaboração (essas duas últimas características se realizarão através das redes sociais).

CLIL (o ensino da língua como veículo, sempre contextualizada por meio de temas relevantes à vida do aluno – a língua como um meio, e não como um fim em si mesma) e a existência de métricas são duas outras tendências metodológicas fortíssimas, e que só vão se intensificar. O aluno deseja aprender a língua estrangeira para usá-la na vida real, e necessita de sistemas que o ajudem a quantificar e medir seu desenvolvimento e performance.

Bem, acho que isso já cobre o bastante por hoje. Baseado no feedback de vocês, continuamos o  tratar do tópico em “posts” futuros.

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Candy Crush Saga. Clique para ver aumentado.

Au revoir,

Jorge Sette.

Qual vai ser sua próxima língua estrangeira?


Suponho que o atento leitor (ando lendo Machado de Assis, como se pode perceber) já fala inglês fluentemente. Do contrário, como poderia estar empregado, fazer uma pós-graduação, usar a Internet, jogar videogames ou se deliciar com as poderosas interpretações dos atores de “Breaking Bad” sem se distrair com as legendas, ou ainda pior (inconcebível!), com as intragáveis dublagens?

Imagino que a frustração que você sentiria seria a mesma por que passei ao ver dois belos filmes franceses recentemente (“Azul é a Cor Mais Quente”, e “Jovem e Bela”), percebendo que o fato de baixar os olhos repetidamente para ler as legendas – nem sempre bem traduzidas – prejudicava a experiência de mergulhar totalmente no universo daquelas belas mulheres.

Bem, de qualquer forma não me sinto tão culpado, pois como já expliquei em posts anteriores neste blog, o francês é minha próxima meta: pela pura beleza da língua, pela possibilidade de ler obras literárias no original, e,  talvez, quem sabe, poder sonhar em morar um tempo em Paris (só a idéia de poder visitar o Louvre quando bem queira e entenda me tira do sério).

E você?  Já pensou qual sua próxima língua?

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Hoje em dia não se pode mais saber apenas uma língua estrangeira. Especialmente se você é jovem e está iniciando sua carreira acadêmica ou profissional. Sério!

Claro que o inglês é sempre a primeira opção, pela sua função de língua franca (serve como ponte para a comunicação internacional entre várias povos de diversas línguas), além de ser a língua em que se publicam os mais importantes artigos informativos e científicos, e todos os outros motivos que enumerei no primeiro parágrafo dessa nossa conversa.

Mas e a próxima língua?

Infelizmente, não posso ajudá-lo nessa decisão, pois essa escolha dependerá exclusivamente de seus objetivos. Se você optar por uma língua que muita gente já fala internacionalmente (como o inglês, o espanhol ou o francês) poderá estreitar o contato com mais gente e terá uma maior audiência (se sua meta for, por exemplo, fazer negócios com diversos países, ou, talvez, publicar e ser lido).

Mas talvez você queira se diferenciar como professor ou tradutor, especializando-se em uma língua pouco falada por essas bandas (russo, mandarim, urdu?), direcionada a um nicho especifico e talvez bastante lucrativo do mercado. Ou talvez você queira ler os filósofos alemães no original, ou mudar-se para um certo país por amor à cultura local. Ou por qualquer outra exigência profissional ou acadêmica.

Como você já percebeu, o objetivo desse post não é resolver o problema do (a esta altura) impaciente leitor (de volta a Machado!), mas fazê-lo começar a pensar que, no mundo complexo em que vivemos, você precisará provavelmente de mais umas duas línguas além do português para integrar-se exitosamente na engrenagem globalizada.

A internet é o lugar ideal para começar sua pesquisa (google, por exemplo, “línguas com maior número de falantes”, “línguas com maior número de falantes não nativos”, “what language should I learn next”, etc, etc).

Não durma no ponto: a hora de começar é agora.

Au revoir

Jorge Sette

Inglês para os gregos (não) é grego!


Uma das vantagens de se falar uma língua estrangeira, sobretudo o inglês, é  a facilidade de lidar com as vicissitudes de uma viagem ao exterior.

Evidentemente em países como EUA, Inglaterra e Canadá, falando e entendendo inglês, você se sentirá muito mais à vontade.  Tudo fica mais fácil, desde a constrangedora entrevista no posto de imigração na entrada do país, passando pelas compras,  e abrindo até mesmo as portas à possibilidade de paqueras e amizades  menos superficiais com as pessoas da terra.

Como gerente de marketing de duas editoras multinacionais, tive oportunidade de fazer muitas viagens a trabalho. Conheço , portanto, vários países da América, Europa e Oriente Médio.

Observei que, pela maioria dos países por onde passei, é muito fácil transitar usando apenas o inglês. A América Latina, no entanto, é um pouco problemática nesse aspecto, portanto, recomendo que se aprenda um pouco de espanhol (se for viajar profissionalmente). Já como turista, brasileiros podem se virar facilmente com o “portuñol”.

Grécia, Turquia e  França são bastante refratárias ao inglês.  Na França, tive dificuldade de atravessar a catraca do metrô com minha imensa mala,  no trajeto do aeroporto para o hotel, e passei o vexame de ser submetido aos gritos de uma funcionária que tentava me explicar inutilmente que havia uma porta especial ao lado para passageiros com bagagem. Meu nível 3 de Aliança Francesa – interrompido há anos – não me ajudou muito. Hora de retomar.

Na Turquia, tive uma bola de futebol  de borracha (com um desenho de mapa mundi) confiscada no aeroporto de Istambul por não ter conseguido comunicar mais claramente a ideia de que seria usada  apenas  como um inofensivo instrumento em um treinamento de professores.

Na Grécia, além do inglês, usei todo o meu arsenal de gestos e linguagem corporal para comprar um hidratante numa mercearia. Não sei exatamente o que comprei, mas ao aplicar a poção ao meu corpo depois do banho,  notei que produzia espuma, e  em poucos minutos minha pele explodiu em bolhas minúsculas,  uma alergia fortíssima que quase me levou ao hospital (decidi esperar melhorar sem ajuda, pois seria complicado lidar com médicos e enfermeiras  tão mitológicos, uma vez que inglês para eles definitivamente NÃO é grego).

Motoristas de taxi gregos vão tentar roubá-lo independentemente de que língua você fale, portanto não posso usar isso como estímulo para  fazê-lo aprender um idioma estrangeiro.

Na maioria dos casos, porém, viajar sabendo inglês  torna sua experiência muito mais prazerosa.  Recomendo!

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Au revoir

Jorge Sette

Sotaque tem importância?


Como todos aqueles que aprenderam uma segunda língua sabem muito bem, é praticamente impossível perder o sotaque característico da língua nativa (o português no nosso caso).

Estudei num escola de línguas na Inglaterra numa turma de nível de inglês avançado (estudávamos para o Cambridge Proficiency, um certificado internacional), e ao final de algumas semanas de curso,  já sabia identificar a nacionalidade de praticamente todos os alunos com quem falava  na escola, guiando-me apenas pelo sotaque.

Alguns sotaques eram mais carregados e fáceis de identificar, como os dos falantes de suiço-alemão, francês e espanhol. Outros, um pouco mais suaves (em geral, os dos alunos de países nórdicos). Mas o sotaque estava ali, sempre presente, em alunos de alto nível de inglês.

Digo tudo isso para explicar que sucesso na aprendizagem de uma segunda língua não requer que se fale a língua exatamente como um nativo  o faria. Claro que quanto mais nos aproximarmos de um modelo de falante nativo (no caso do inglês, de um norte-americano, ou um australiano ou alguém da Inglaterra)  mais chances  teremos de nos fazer entender internacionalmente.

Grande escritores não nativos que escreveram em inglês (Nabokov e Joseph Conrad, por exemplo), nunca perderam o sotaque estrangeiro na linguagem falada.

Alguns atores, como Meryl Streep e Tom Hanks, são supostamente excelentes quando imitam sotaques (regionais ou internacionais) em suas oscarizadas atuações. Mas quando perguntamos a alguém da região ou país cujo sotaque foi imitado, em geral ouvimos reclamações e piadas sobre a falta de autenticidade. Quem não se lembra do horrendo sotaque australiano de Meryl Streep no filme A Cry in the Dark: “The dingo ate my baby!”

Não meça seu sucesso numa segunda língua pela presença do sotaque. Alguns acham até charmoso manter um sotaque local (dizem que o nosso, o brasileiro,  é especialmente charmoso).

Au revoir.

Jorge Sette.