“You’re so vain” (Books I think are about me)


I got a funny reaction to my blog post on Wuthering Heights (http://wp.me/p4gEKJ-j0) from an anonymous reader. He or she wrote to me saying: “You are so vain, you probably think Wuthering Heights is about you”. I suspect this is an adaptation of a line of an old Carly Simon song, who allegedly was referring to Mick Jagger. In a way, I found the comment rather amusing, and, to be quite honest, remarkably true. Even more worrying: I tend to think that every single book I love is about me! As a matter of fact, it only interests me if I can somehow relate to it. And I guess this is what happens to every reader, at least the more romantic ones, like me. So, yes, you got it right, dear anonymous e-mail writer.

Take for example some of the best books I have read (and often reread) : Dom Casmurro (by Machado de Assis), Nemesis (by Philip Roth) and The Bonfire of the Vanities (by Tom Wolfe). They are really all about me.

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Dom Casmurro, by Machado de Assis.

The first time I read Dom Casmurro I was still in high school, and totally fell in love with Capitu. The kiss she and Bentinho exchange while he is combing her hair and she drops her head back, making their faces align in opposite directions, is  one of the most romantic scenes I remember as a teenager. Imagine my surprise when I saw a repeat of that scene decades later in the movie SPIDER MAN! This time he was hanging upside down from a wire fence while Mary Jane was looking up.  The same kind of kiss. Also, like Bentinho, the main character in Dom Casmurro, I can be quite jealous in a relationship and totally understand how paranoid it must feel to have your kid grow up to look like your best male friend. And the best thing is, every time I read the book again, I find new clues that indicate that Capitu must have been unfaithful, although we can never be one hundred per cent sure, as the story is very cleverly told from the point of view of the narrator only, who happens to be Bentinho, the husband.

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Nemesis, by Philip Roth

Nemesis by Philip Roth is a very universal story, and if you can’t identify with it, I’m afraid you have a problem. Although I’m not Jewish and am fortunate enough not to be physically disabled (the story is about the terrible consequences of the outbreak of a polio epidemic in the mid-1940s New Jersey), I fully identify with the book’s themes. The main message, as I see it, is, if you are struck by tragedy, if you have a disability of any kind, or anything else people may look down upon or reject you for (and that probably applies to all of us), there is no point in blaming God or the Universe for it. Get on with your life, it’s your responsibility to make the most of it and restore or construe your own meaning for happiness. Or fight back. This is something everyone needs to hear: take full ownership of your failures and problems, and deal with them. No one else will care as much. Tough, but real.

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The Bonfire of the Vanities, by Tom Wolfe

The Bonfire of the Vanities: the main character finds himself in a kafkaesque situation: he gets lost in a dangerous part of  the city while driving back from the airport with his mistress, and accidently seems to strike a young black man he was sure was trying to mug them.  What a nightmare!  Was it a hit-and-run accident? Should they tell the police straightaway? But the wife will find out about the mistress then. Was the kid really hit, all they heard was a little noise (“thok”) after all. Surely the boy was OK. What decisions do they need to make? Mistakes are inevitably made along the way and there are terrible consequences. Moreover, there are many third parties (journalists, community leaders, attorneys, politicians, etc) trying to profit politically from the situation. Nothing is as morally simple as it first looks. Interesting questions. The reader gets deeply involved in the plot and its turns. “Unputdownable”. Besides, it’s very tempting to picture myself living the good life of a succesful Wall Street yuppie in a huge two-story apartment off Park Avenue in Manhattan…without the tragedy! Another book that COULD be about me.

So I’m really sorry if the anonymous e-mail writer intended to hurt my feelings accusing me of believing that Wuthering Heights is about me. Catherine, one of the book’s main characters, says at one of the most important plot points in the story: “I am Heathcliff!”  Well, so am I!

Au revoir

Jorge Sette.

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights): uma obsessão!


O primeiro contato

A primeira vez com que me defrontei com Catherine e Heathcliff, personagens principais de O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (Wuthering Heights), eu tinha quinze anos, e eles falavam em português. A cópia que eu lia, uma bela edição traduzida, de capa dura  em vermelho da Editora Abril (veja foto abaixo), mencionava “charneca” (the moors)  e “urzes” (heather). Nunca ouvi essas palavras em português noutro contexto, e as acho impressionantes e memoráveis. Não posso dizer, portanto, que minha obsessão  pelo livro tenha sido causada pelo inglês apaixonado de Emile Brontë, a autora. Foi a história em si, o enredo, a estranheza dos personagens, com suas personalidades fortes e até mesmo violentas,  e especialmente o cenário desolado de Yorkshire, que me marcaram tão profundamente.

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O Morro dos Ventos Uivantes

Chegando ao original

Só muitos anos depois fui ler o original em inglês (confesso que até hoje tenho dificuldades com o dialeto local do personagem Joseph, o caseiro, fariseu fanático e mal humorado, sempre pontificando contra o pobre Heathcliff), e também, pude ouvir o texto em duas versões diferentes de audiobook (há várias, com diferentes narradores, disponíveis no site audible.com, que, acredito, pertence agora a Amazon). Cheguei a colecionar diferentes cópias impressas. E toda vez que vou à Livraria Cultura tenho que me controlar para não comprar uma nova, com capa e formato diferente. Tenho duas no Kindle.

Não sou a única vítima do fascínio  quase inexplicável que Wuthering Heights exerce sobre alguns leitores, conheço muitos deles. Numa editora em que trabalhei, tinha laços muito estreitos com uma colega que morava na Inglaterra. Comentando sobre nossa amizade, uma da minhas chefes me congratulou, dizendo que era muito importante manter um bom relacionamento com clientes internos. Respondi com bom humor que não se preocupasse, pois eu e a colega tínhamos um vínculo inquebrantável: nossa paixão por Wuthering Heights.

A história

Para os que não conhecem o enredo, a história,  que se passa na segunda metade do século XVIII, contada em flashbacks,  é muito simples: um orfão de Liverpool, Heathcliff, de origem possivelmente cigana, é adotado por uma viúvo, que o recolhe durante uma viagem de negócios, e o traz para morar no casarão da fazenda que dá nome ao livro,  situada num área desolada e inóspita do norte da Inglaterra, cercada pela charneca (saboreio essa palavra com prazer, como se fosse uma fatia de cheesecake). O viúvo tem um filho e uma filha, Catherine (Cathy), que, a princípio, desprezam e maltratam o recém-chegado.

Catherine e Heathcliff, no entanto, são espíritos livres e selvagens, e, é claro, não demoram a se encontrar um no noutro. Passam o dia brincando e correndo pela charneca (olha essa palavra aí de novo!), até que o inevitável acontece: se apaixonam. Surpreendentemente, Catherine decide se casar com um vizinho mais endinheirado, pois, para ela, a posição social é tão ou mais importante que o amor. Heathcliff a entreouve, sem que ela perceba, quando Cathy confessa à governanta (a narradora principal da  novela) que seria humilhante casar-se com ele, apesar de ser a sua alma gêmea. “I am Heahcliff”, ela diz em certo momento, numa frase icônica,  mostrando que o sentimento dos dois vai muito além de uma mera paixão física.  Mas Heathcliff não chega a ouvir esta parte, pois já decidiu que não pode viver mais ali  e se vai.

Anos depois ele retorna, rico e poderoso. O resto da história é uma intriga de amor, ódio, ciúmes e vingança – não, não é novela das oito da Globo, sei que há paralelos, mas não se enganem. Tudo isso envolto numa atmosfera gótica, com a violência da geografia e das condições climáticas (frio, chuva, neve e vento) não apenas servindo como pano de fundo, mas refletindo e reproduzindo, na natureza, as paixões dos personagens principais.

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Versão cinematográfica clássica, de 1939.

Os filmes

Vi duas versões cinematográficas do livro: a clássica,  de 1939, com Lawrence Olivier no papel de Heathcliff e Merle Oberon no papel de Catherine, e uma mais recente, dirigida por Andrea Arnold, de 2011. A que prefiro é esta última,  que ousa escalar um ator negro para o papel de Heathcliff. Esta versão para mim é a que reflete mais fielmente os personagens do livro. É uma versão mais sombria,  cheia de silêncios e imagens impactantes do desolamento da região. Com atores em ótimas interpretações. Veja clip abaixo.

Por fim

Como conclusão, ressaltaria que a literatura, além do prazer (e obsessões)  que proporciona e da capacidade que tem de aumentar nossa empatia, colocando o leitor numa posição privilegiada para apreciar  e entender o ponto de vista e a perspectiva de terceiros, é também uma forma eficaz de aprendermos ou aprimoramos  uma língua estrangeira.

Au revoir

Jorge Sette.