Se você vem a São Paulo para a Copa do Mundo…


Com cerca de 19 milhões de habitantes em sua área metropolitana, Sampa, como carinhosamente chamamos esta cidade, é o centro financeiro da América Latina e a maior cidade do hemisfério sul. Acabou de completar 460 aninhos no dia 25 de janeiro passado, e está se preparando para um futuro radiante. Dê uma olhada no meu painel do Pinterest em homenagem ao aniversário de São Paulo (http://www.pinterest.com/jorgesette/são-paulo-460/ ).

Uma das 12 cidades brasileiras escolhidas para sediar os jogos da Copa do Mundo, a partir do próximo 13 de junho, Sampa está esperando um grande número de turistas, tanto de outras cidades brasileiras como do resto do mundo. Estaremos no nosso inverno, com temperaturas mínimas de 10 graus Celsius e tempo seco. É verdade, não temos as belezas naturais do Rio, e nunca fomos a capital do país, mas se você quer uma experiência de brasilidade total, em toda sua miscigenação e cosmopolitismo;  se busca intensa atividade cultural, vida noturna  para todos os gostos e idades,  ou disfrutar da melhor gastronomia do Brasil, este é o lugar para visitar. Welcome!

Em qualquer guia turístico impresso ou online você encontrará centenas de opções de passeios, programas noturnos, museus e lugares para fazer compras. No entanto, neste post você está tendo uma oportunidade única de ler a respeito de 4 dos programas locais que típicos paulistanos como eu fazem no dia a dia, e nos fins de semana. Não se trata de armadilhas para turistas!

Vila Madalena

Vamos começar pelo meu bairro, a Vila Madalena, um dos mais boêmios da cidade, conhecido como o SOHO brasileiro, pela quantidade de galerias de arte, boutiques, bistrôs, cafés, sorveterias, barzinhos e padarias (uma instituição tipicamente paulista) dispersas nas suas colinas arborizadas. Sim, há muito verde em Sampa. É um mito dizer que só temos cinzento e concreto. Intriga de carioca!

Diz a lenda que a quantidade de botecos e bares na Rua Mourato Coelho, uma das principais do bairro,  é tamanha, que, se um desavisado bebedor decidir tomar um único copo de cerveja em cada um deles, entrará em coma alcoólico antes de chegar ao final da rua.  Já, para reforçar a energia do turista que se aventurar a subir e descer nossas ladeiras, recomendo o açaí na tigela da padaria VILA GRANO, que pode ser saboreado a qualquer hora do dia e da noite (aberta 24 horas, 7 dias na semana!)

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Vila Madalena. Clique para ver a foto ampliada.

Avenida Paulista e imediações

Passemos agora à Avenida Paulista, que, com seus 2.8 km de comprimento,  é o centro financeiro da capital. A Paulista é também onde tudo acontece: incluindo as mais diversas manifestações  e protestos políticos, celebrações de final de campeonato de futebol, e a maior parada gay do mundo. Com um calçadão generoso para pedestres, e uma faixa de ciclovia aos domingos, a avenida Paulista é o que temos de mais semelhante a Ipanema (sem o mar e o deslumbrante por do sol visto do Arpoador. Ok, dou o braço a torcer aos cariocas, desta vez).  A Paulista liga o bairro do Paraíso à avenida Consolação (e a piada é que sempre há um consolo se não se chega ao paraíso).  Bem há quem diga que ela só termina na Rua Minas Gerais, depois da Angélica!

O mundo, em toda a sua diversidade, cores e gêneros perambula despreocupadamente pela avenida nos fins de semana, em contraste com os paletós  que caminham apressadamente em direção aos inúmeros escritórios, bancos, hospitais e consulados da região de segunda-feira a sexta.  Uma média de 1.5 milhões de pessoas circulam na Paulista por dia. É também na região da Paulista que temos praticamente os únicos cinemas de rua da cidade (em oposicão aos de shopping centers), com seu charme e poesia. A boa notícia é que um dos mais tradicionais, fechado há cerca de 3 anos, vai reabrir agora: o CINE BELAS ARTES, na esquina da Paulista com a Av. Consolação.

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Avenida Paulista

A Livraria Cultura

Há muitas filiais desta livraria na cidade, e até em outras partes do Brasil também. Mas, para mim, a que se situa no interior do Conjunto Nacional (com duas lojas, e ainda abrigando um disputado coffee shop, um cinema e um teatro) é o centro intelectual de Sampa. O lugar tem uma vibração e atmosfera únicas, bem especiais, com gente entrando e saindo das suas amplas instalações todos os dias da semana. Temo pelo seu futuro, baseando-me no fechamento de grandes livrarias no mundo todo (o fechamento que mais me traumatizou até agora foi o da Borders, nos EUA, que eu adorava).  Mas acho que  o pessoal da Livraria  Cultura está no caminho certo, já começando a transformar o lugar num ponto de encontro cultural, e num imenso showroom para futuras vendas a partir do seu próprio leitor eletrônico, o KOBO.

A Pinacoteca do Estado, Estação da Luz e Museu da Língua Portuguesa

Situada no agradável Parque da Luz, a Pinacoteca é o mais antigo museu de Sampa e um dos mais famosos museus brasileiros, com um acervo da mais de 8000 obras, a maioria de artistas brasileiros dos séculos XIX e XX. O  prédio do museu em si já vale uma visita, pela magnificência de sua arquitetura. E se houver tempo, aproveite a oportunidade para ver obras de Di Cavalcanti, Almeida Junior, Anita Mafaltti, Tarsila do Amaral, etc.  Da porta do museu, pode-se também admirar o deslumbrante prédio da Estação ferroviária da Luz (que também acede a uma linha de metrô, para sua conveniência)  e, se cruzar a avenida, terá acesso ao Museu da Língua Portuguesa, que  promove de forma muito criativa  e interessante a língua nacional.

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Estação da Luz

E por falar na língua portuguesa, se você não é brasileiro, não esqueça de aprender algumas expressões e palavras essenciais como preparação para sua visita ao Brasil durante o mundial de futebol. O inglês, ou qualquer outra língua estrangeira, é muito pouco falado no Brasil. Estima-se que menos de 3% da população seja fluente no inglês.  Acabamos de ler nos jornais, por exemplo, que alunos universitários enviados ao exterior para um programa de iniciação científica subsidiado pelo governo, chamado CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS, correm o risco de voltar ao Brasil,  pois seu nível linguístico em inglês (mesmo depois de seis meses no exterior) não os qualifica para aceite pelas universidades que participam do programa.  Por isso, mãos à obra, você ainda tem alguns meses para praticar seu português.

Por hoje é só.

Au revoir

Jorge Sette.

Ensinando Português “BRASILAIRO” em Portugal


Depois de morar na Inglaterra por quase 18 meses em 88/89, a coceira de viajar recomeçou, e como havia tido o convite  de um colega de escola  em Bournemouth para visitá-lo no Algarve, resolvi aproveitar a aportunidade e passar um tempo em Portugal.  Chegando ao aeroporto em Portugal,  percebi já uma familiaridade brasileira na imigração, uma atmosfera bem diferente da formalidade e frieza britânicas. Também, saindo à rua,  me chamou a atenção a luminosidade do lugar, se comparada à qual  me havia exposto nos últimos 18 meses. Praticamente não houvera verão em 88 na Inglaterra.

No avião, soubera por um outro brasileiro de uma “pousada” no centro  de Lisboa, com preços acessíveis e uma dona muito simpática.  Uma vez que não fizera reserva, resolvi ligar de um telefone público para a tal senhora da pousada.  Já ao telefone senti dificuldade em entender o sotaque lusitano, e me parecia que a dona da pousada se dirigia a mim de forma estranha: ‘Sim, senhôra, temos vagas! ‘  Não podia acreditar que ela estivesse  confundindo meu sexo, pois minha voz mudara muito cedo na adolescência, e  não havia dúvidas de que depois dos vinte anos eu tinha defitivamente o timbre masculino na voz! Resolvi passar a falar em inglês com ela, daí foi que me dei conta de que o seu uso de “SENHÔRRRRRR (A)  era apenas uma questão de sotaque! Definitivamente, não estávamos no Brasil.

Instalado na pousada, saí imediatamente a procurar emprego.  Havia a necessidade de regularizar uns tais de RECIBOS VERDES para trabalhar legalmente, e dei início ao processo. Não havia demanda para professores de inglês, pois havia muitos ingleses na região,  e eles ocupavam os cargos, mas não tive problemas em me distinguir como PROFESSOR DE PORTUGUÊS BRASILAIRO, como dizem por lá, e logo logo tinha emprego em duas escolas.

Claro que o ensino de português como língua estrangeira não dispunha dos mesmos avanços metodológicos  e materiais didáticos  que o ensino de inglês na época. Além disso, eu havia sido professor na Cultura Inglesa de Recife, que, além de usar os livros didáticos mais atuais do mercado, se destacava pela imensa quantidade e qualidade de materiais didáticos extras disponíveis na sala dos professores. Havia material  suplementar para qualquer ponto linguístico que se precisasse ensinar.  Portanto estranhei bastante a carência de recursos  no começo.

Eu era o único professor  brasileiro nas duas escolas em Portugal. Ou seja, tudo estava sob minha responsabilidade: desde a escolha dos livros, criação da metodologia, seleção de materiais suplementares.  Desafios excitantes. Além disso, era ótimo sentir-se falante nativo da língua, um gostinho que obviamente nunca tivera ao ensinar inglês.

Jorge preparando aulas de português para estrangeiros. Lisboa, 1989.

Jorge preparando aulas de português para estrangeiros. Lisboa, 1989. Clique para aumentar.

Tive alunos bem interessantes.  Como a demanda por português brasileiro não era tão grande na época, em geral eram aulas individuais. Todos os meus alunos, tanto em Lisboa, como depois no Algarve, eram alemães. Havia também uma suíça, de mãe brasileira.

Tive uma aluna  alemã que se dizia escritora feminista, adorava Caetano Veloso, e me levou a um show dele em Lisboa (pagando a minha entrada). O show foi maravilhoso (nunca vira Caetano ao vivo no Brasil), apesar de me sentir um pouco constrangido quando a aluna cantava a plenos pulmões “réptil camaleoa” acompanhando o cantor: como o leitor deve saber, o verso original, sem a adaptação criativa da minha aluna, seria  “rapte-me, camaleoa!”. Claro que a primeira coisa que fiz  foi ensinar-lhe a letra na próxima aula, e quando vi a surpresa nos olhos dela, não tive coragem de comentar o erro anterior, ela havia notado, sem dúvida!

Tive ainda, como alunos,  um casal de operários  alemães que se mudaria para o Brasil para trabalhar com Lula e apoiá-lo na campanha presidencial de 1989.

Logo depois,  uma das escolas me convidou para ensinar  na sua filial em Faro, no Algarve.  Ali, tive um aluno alemão, executivo da Siemmens, que viria morar no Rio, e a tal aluna suíça, filha de brasileira, que já falava seis línguas. As aulas dos dois eram separadas, mas fazíamos muitos passeios juntos pelo sul de Portugal, que eram na verdade uma continuação das aulas. Me sentia um pouco como Maggie Smith no filme Primavera de Uma Solteirona, saindo em excursões e jantando com os alunos. Só que todos eram mais velhos que eu!

Engraçado como ser falante nativo da língua que se ensina pode levá-lo a surpreender-se com pontos linguísticos sobre  os quais nunca cogitara antes: um aluno me perguntou a regra de uso do subjuntivo depois das conjunções APESAR DE QUE, EMBORA, SE, etc….não soube explicar…acho que até hoje não sei. Também aprendi muito sobre as diferenças entre o português brasileiro e o lusitano.  Até mesmo com os próprios alunos. A listinha abaixo  (do site http://www.soportugues.com.br) lhes dará uma idéia, por exemplo, de diferenças de vocabulário que podem causar-lhes certos problemas:

Português do Brasil
Português de Portugal
abridor tira-cápsulas
açougue talho
aeromoça hospedeira de bordo
apostila sebenta
bala rebuçado
banheiro casa de banho
cafezinho bica
caixa, caixinha boceta
calcinha cueca
carteira de identidade bilhete de identidade
carteira de motorista carta de condução
celular telemóvel
conversível descapotável
faixa de pedestres passadeira
fila fila ou bicha (gíria)
geladeira frigorífico
grampeador agrafador
história em quadrinhos banda desenhada
injeção injeção ou pica (gíria)
meias peúgas
ônibus autocarro
pedestre peão
ponto de ônibus paragem
professor particular explicador
sanduíche sandes
sorvete gelado
suco sumo
trem comboio
vitrine montra
xícara chávena

Bem, só não havia “telemóvel” naquela época! Por hoje é só. Mais sobre ensino/aprendizagem de línguas num futuro próximo.

Au revoir.

Jorge Sette